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O PRESENTE DA FLOR...


O menino chegou para ela
E lhe ofereceu um remalhete de flores
Deu uma piscadela
Saiu correndo
E deixou a menina embriagada
Por aquela quantidade de perfumes e cores...

O presente do admirador
Fez crescer uma semente
No coração da menina
Que não estava acostumada
A ter uma emoção assim tão repentina...

A doçura do gesto do garoto
Transformou o jeito da menina de enxergar as coisas
Agora ela saia de casa com uma das florzinhas do ramalhete
Espetada no cabelo
Porque queria que seu admirador soubesse
Que o presente dele
O coração dela fez derreter
E a mão dela o pai ainda iria no futuro lhe oferecer...

Ele era um menino bom, gentil, de atitude honesta
Tinha um sorriso de fazer nascer o sol
Uma alma de poeta
Um olhar de cantor de seresta...

Desde o dia do presenteio da flor
Os  dois viraram um do outro o melhor amigo
Não se largavam mais
Quando esqueciam as palavras
Conversavam por telepatia
Partilhavam um amor de verdade
Baseado em mútua cumplicidade
E recheado da mais profunda, pura e simples
Felicidade!! 

-Simone Bittencourt Shauy- 

ROMPENDO TEMPOS...


A última porta que se fechou
Ecoou solidão
Silenciou o que passou
Por detrás de seus domínios

Agora estou aqui
Para um novo mundo
Como um artista sentado
Em frente a uma tela branca
Tentando concatenar idéias
Sempre com aquela teimosa dúvida sobre meu talento

Para trás ficam as certezas
Para frente está o mistério
Que o desconhecido
O não vivido
 Trazem

É um misto de apreensão
Com um desejo impetuoso de abraçar o espírito
Do desbravador

Me pergunto
Quais são os sete mares
Que me aguardam...

Sei que não vão esperar
Até que eu vire o comandante do navio
Vão me pegar ainda marinheira
Senão já náufraga
De outras viagens

Mas tenho a memória
De algumas âncoras que finquei
E onde não quero mais ancorar
Ou fazer morada

Quero ser mais livre
Para me aventurar em novas correntes
Descobrir novos horizontes
Mas atracar em portos...bem...
Só se necessário

Só mesmo se o acaso seduzir-me a perder-me
 Na contemplação de um por-do-sol mais demoradamente
Porque aquele um
Foi diferente dos outros
Me fez querer criar raízes
Em algum lugar...

-Simone Bittencourt-

SIMPLESMENTE UM LUGAR...


Aquele lugar tinha uma coisa de sossego que era um encanto. Era possível ouvir o som do silêncio, tamanha calmaria. Longe de tudo em todas as direções. Imaculado em vários aspectos. Gostava de sentar no gramado inesquecivelmente verde para pensar na vida. Refletir sobre o azul do céu e acabar dormindo sem hora para acordar, como se fosse transportada para uma outra dimensão de sentir e viver. Falando em sentir, este lugarejo era um banquete para os sentidos. Aromas maravilhosos, cores deslumbrantes, melodias que a natureza sabe como ninguém orquestrar, sabores dos mais diversos e sedutores. 
A casa era antiga, de uma simplicidade sem paralelos. Tinha muitas estórias para contar e espaço para aconchegar qualquer que fosse o transeunte que trombasse por aquelas bandas. Tinha perfume de café fresco e de pão saído de padaria. Nada mais hospitaleiro do que isto! Cada cômodo tinha uma personalidade, uma força mágica. Depois que se entrava naquela casa, se saia outro. Coisa esquisita. Acho que a casa era toda assim especial, porque queria que quem viesse ficasse. Casas não gostam de ficar sozinhas, assim como os animais domésticos. Casas são felizes cheias e melancólicas vazias. Casas gostam de risos, conversas, barulho de passos, mistura de aromas na cozinha, gente abrindo e fechando suas janelas e portas. Casas gostam de quadros na parede, tapete no chão e bolo crescendo no fogão. 
Havia muitas árvores espalhadas pelo jardim. Eram todas elegantes, mas sem arrogância. Os galhos acomodavam os ninhos dos pássaros, como as mãe embalam os filhos pequenos nos braços, com cuidado e ternura. As árvores acho que tinham um q de conversadeiras, porque a tudo observavam. Só no inverno que ficavam mais retraídas e caladas. Eram todas lindas e generosas. 
Nos fins de tarde, as abelhas vinham se juntar às borboletas para paquerar as flores que competiam em vaidade. Desfilavam um mundo de tonalidades. Flores são muito poéticas. 
E eu, desde pequena, sempre gostei de passar horas observando as formigas trabalhando incansáveis durante o dia e ouvindo os gafanhotos cantando durante as noites quentes de verão.  Insetos são criaturas formidáveis. Só na aparência são frágeis. Diferentes de nós humanos, são capazes de se adaptar a qualquer intempérie e sobreviver catástrofes sem precedentes. Gostava também de acompanhar o trabalho arquitetônico de grande detalhe e perfeição das aranhas construindo suas inventivas teias. Algumas carregando seus ovinhos com um cuidado e preocupação de alguém que sabe calcular o tamanho da responsabilidade de se colocar vidas novas no mundo. 
Naquele lugar me perdi tantas vezes. Me perdi em devaneios e afetos. Aquela coisa de amor à primeira vista tinha por ele. Era sempre igual, mas sempre uma novidade. 

-Simone Bittencourt-

RITA HAYWORTH FOI MUITO MAIS DO QUE SIMPLESMENTE GILDA...

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Fotografada pelo grande George Hurrell

Hoje quero me propor a escrever sobre a vida feliz de alguém que viveu muitas coisas tristes. Rita Hayworth uma vez pediu que se alguém fosse escrever sobre ela, que o fizesse numa narrativa recheada de alegrias. Muito se falou das tragédias de sua vida e pouco sobre o que foi bom, positivo. Onde quer que esteja, quero fazê-la feliz com este meu artigo, honrar o pedido que fez.

Rita Hayworth nasceu em 1918, no bairro do Broklyn em Nova Iorque, num núcleo familiar de diversidade cultural. O pai, Eduardo, era espanhol, a mãe Volga, americana de pais irlandeses. Seu nome original era Margarita Carmen Cansino. Os Cansino eram uma família de dançarinos profissionais. Rita logo cedo começou a desenvolver tal habilidade que viria a ser uma de suas marcas registradas.

Apresentando-se num evento de dança com o pai no México, foi vista por um executivo dos estúdios Fox Films e recebeu uma oferta para fazer uma ponta num filme. Da Fox, foi para um segundo estúdio, Columbia Pictures, onde construiu uma carreira de 18 anos de imenso sucesso, conquistando à todos com sua competência, talento, graciosidade e nocauteadora beleza. Soube tão bem arrebatar nossa simpatia, afeição, sentidos e sonhos. Tinha uma coisa especial, muito especial, que não nos deixava tirar os olhos dela.

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Nos primeiros filmes, Margarita somente recebia papéis de mulheres exóticas, por conta de sua aparência notavelmente espanhola. Até que o dono do estúdio Columbia, Harry Cohn, resolveu mudar radicalmente sua imagem. De predominantemente morena tornou-se consistentemente ruiva. De Margarita foi tornada Rita.

Sua imagem figurava divinamente nas telas. Era a personificação da beleza e sensualidade. Um carisma tão grande que sempre roubava a cena. Na vida pessoal era profundamente tímida, humilde, generosa, doce e apreciada por sua autenticidade genuína. Como atriz, extremamente disciplinada, perfeccionista e dedicada. Foi conhecida, depois de Bette Davis, como a atriz que trabalhava com mais afinco para sempre se superar na arte de atuar e dançar. Acalentava o sonho de cantar, igualmente.

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Ao lado de Fred Astaire no filme "You Were Never Lovelier" de 1942

O grande dançarino das telas Fred Astaire disse que Rita foi a sua parceira favorita nos filmes musicais e que ficava perplexo com a facilidade que tinha para memorizar as coreografias, não importava quão complicadas fossem. De fato, a harmonia e sincronia entre ela e Astaire eram nada menos do que uma simbiose perfeita. Rita dançava com uma leveza, majestade, doçura, exuberância, charme e magnetismo ímpares. Fez dueto também com outro legendário ator e dançarino Gene Kelly. Rita dizia que quando dançava libertava-se, deixava-se perder numa outra dimensão emocional.

Em 1946 estrelou um filme noir clássico chamado "Gilda", que a tornou a mulher mais cobiçada dos anos 40, sendo chamada de "love goddess". Homens de todos os cantos do planeta sonhavam dia e noite com ela. Apesar de Rita ser uma mulher introvertida, discreta e sem ego algum na vida real, tinha um dom inato para fazer papéis de mulheres extraordinariamente sensuais, sexuais, provocantes, seguras de si, cheias de truques e artimanhas. A cena mais famosa do filme mostra a personagem Gilda fazendo um striptease de somente uma peça de roupa. Uma luva. A  forma como retirou a tal luva foi de espetacular erotismo, incomparável sedução! Tanto que na chamada do filme estava escrito: "Nunca houve uma mulher como Gilda!" Esta personagem lançou Rita ao estrelato absoluto, sem escalas.

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Em "Gilda" (1946), numa das mais memoráveis cenas que Hollywood já produziu...

Não somente foi uma estrela de cinema de extremo talento, mas um dia, a estrela tornou-se princesa. Casou-se com um príncipe muçulmano e afastou-se das telas por algum tempo para viver um conto-de-fadas na vida real. Com o príncipe teve uma filha, Yasmin, que foi sua companheira fiel, leal e incondicional por toda a convivência delas.

Era muito apreciada e admirada por seus colegas atores e equipes de filmagem e fez grandes amigos como Glenn Ford, Jack Lemmon e Robert Mitchum, que foram figuras muito protetores na vida dela. Gostavam de Rita despretenciosamente, não só por ser uma linda mulher. Nunca tentaram tirar proveito da sua vulnerabilidade, ao contrário da grande maioria de outros que orbitaram ao redor dela ao longo da vida e carreira.

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Ao lado de um dos seus melhores amigos, Glenn Ford...

Rita construiu uma carreira cinematográfica valiosa e memorável. Contracenou com atores e atrizes de renome como Tyrone Power, Anthony Quinn, John Wayne, Orson Welles, Frank Sinatra, James Cagney, Burt Lancaster, Olivia de Havilland e Cary Grant. Atuando ou dançando, era uma efusão de indiscutíveis carisma, sensibilidade e versatilidade. Num meio como Hollywood onde tudo parecia efêmero, superficial e insincero, Rita Hayworth provou que tinha substância, era real, gostava das pessoas pelo que eram e esperava o mesmo delas.

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Numa cena muito sensual com o galã Tyrone Power em "Blood and Sand"...

Ao lado das duas filhas, era somente sorriso e orgulho. Não media esforços para fazê-las crianças felizes, não importa quão conturbada e ocupada sua vida estivesse. Muitas atrizes tinham filhos para melhorar a imagem delas publicamente e pouco se importavam com as crianças, mas Rita foi uma mãe de verdade, presente, amorosa, sensível.

No momento mais difícil de sua vida, que foi o período quando foi acometida pelo mal de Alzheimer, Rita teve a filha Yasmin incansavelmente ao seu lado até o último instante. A filha retribuiu todo o amor, atenção e compreensão que a mãe havia lhe dedicado.

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Com a filha Yasmin Khan...

No dia do seu sepultamento, estavam presentes seus melhores amigos da vida inteira, de horas felizes e difíceis, dentro e fora da tela. Rita Hayworth faleceu em 1987 aos 68 anos. Ainda hoje, é lembrada com apreço, admiração, saudade, amor e alegria por fãs do mundo inteiro. Foi um ser humano de qualidades raras. Uma mulher de fibra e coração genuíno. Profissional irrepreensível e muito querida. No caso de Rita Hayworth, é muito difícil definir qual beleza era a mais resplandecente, se a de dentro ou a de fora.

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Numa beleza mais madura...

Excelência, encanto, beleza, esplendor, sensualidade, generosidade, sinceridade, dignidade eram sinônimos de Rita Hayworth. Foi muito, muito mais do que sua personagem Gilda. Na verdade, nunca houve mesmo uma mulher como Rita Hayworth! Não era uma em um milhão. Era simplesmente única!! O legado que deixou neste mundo estava mesmo predestinado a ser eterno, inesquecível, admirável, indelevelmente encantador e apaixonante...

O FILME "CAROL" E O APAIXONAR-SE...

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O cenário é Nova Iorque, Estados Unidos, década de 50. O filme baseado no livro entitulado originalmente "The Price of Salt" da autora americana Patricia Highsmith. A história, uma história sobre as descobertas, o fascínio, belezas, incertezas e os desafios no processo do apaixonar-se.

Therese Belivet é uma recém-contratada vendedora numa loja de brinquedos no período natalino. Jovem, doce, retraída, alimenta ambições de ser uma fotógrafa profissional. Se sente distante do pulso do mundo real por sua quase que completa inexperiência sobre as possibilidades da vida e da relação com as pessoas. Vive suspensa numa atmosfera de indefinições e de emoções desbotadas. Ainda não construiu sua própria identidade como mulher.

Carol Aird é uma mulher de meia idade, madura, culta, sofisticada, contemplativa, remota, mãe dedicada, esposa sufocada num casamento falido. Por viver numa sociedade de aparências, mantém hermeticamente fechados os conflitos do seu mundo interno. Apesar da aparente plenitude de suas experiências, vive a angústia de não saber onde obter uma saída para viver sua real essência. A sensação de isolamento na qual vive é dolorosa e profunda.

Duas mulheres de perfis que pareceriam tão díspares, se encontram numa loja de departamentos onde Therese atende Carol como uma cliente que vem solicitar ajuda para encontrar um presente de Natal para a filha. De imediato, Therese sente um intenso fascínio por Carol. Impressiona-se com esta mulher que decora o cenário da loja com sua beleza surreal, inata sensualidade e imperturbável auto-confiança. Só consegue enxergar tal figura luminosa que se transforma aos seus olhos na única vida daquele espaço, daquele momento. Carol, igualmente, parece se encantar com a inocência, serenidade e autenticidade de Therese. Ambas deixam uma veemente impressão no mundo secreto da outra...

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Dias depois, surge a possibilidade de um novo encontro. Os olhares de Therese e Carol continuam a se estudar num intenso encanto uma pelo mistério da outra. Therese fica intrigada com a natureza remota e soberana de Carol como mulher, uma mulher que nunca viu, não sabia se poderia existir e sempre sonhou em se tornar. Carol com o candor de Therese e a expressão do seu muito lisongeiro deslumbramento por ela. Embora vivam em muito diferentes realidades, ambas estão engessadas nas próprias circunstâncias. Em contraste com a intensa solidão que sentem, uma parece encontrar na outra um escape para um universo paralelo que possa libertá-las da sensação de claustrofobia na qual se vêm aprisionadas. Dois mundos que se convergem quase que instintivamente em nome de um sentimento que amplia as fronteiras de suas vidas, rearranja seus dias, os preenchem com novas cores e instigantes expectativas.

A construção deste vínculo de afeto é baseada primordialmente numa comunicação por intermédio de olhares, gestos, sorrisos, palavras não ditas, sentimentos que crescem e implodem dentro delas, quase que um constante exercício de telepatia. Carol é uma figura insondável. É deixado à Therese o desafio de decifrá-la. Ainda não conseguem elucidar o que existe, mas sabem que alguma coisa aconteceu e que está dando uma nova forma ao que são e sentem de mais absoluto e intrínsico. Logo tornam-se quase que dependentes uma da presença e da essência da outra.

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Carol enfrenta um processo de custódia da filha extremamente conturbado e decide fazer uma viagem para longe até que o processo judicial seja oficialmente iniciado. Sentindo sua vida um vazio sem precedentes, decide convidar Therese para acompanhá-la, talvez tendo como principais motivos, dar a oportunidade a jovem de descobrir as possibilidades da vida, expandir finalmente seus horizontes, emancipá-la, além de lhe fazer companhia. Sente-se segura e feliz com Therese, que não oferece ameaça, a tira da monotonia, alivia o vazio que sente e, sobretudo, lhe dá valor, atenção, é leal e a coloca como centro do mundo dela. Um mundo que Carol se sente atraída a mergulhar, porque sabe que nele existe aceitação incondicional, espaço para ela ser a sua essência finalmente, além de afeto infinito e genuíno. Therese, sensibilizada com o convite, aceita-o sem hesitação. Absolutamente idealista, sonha em resolver os problemas de Carol e fazê-la saborear sempre um senso de felicidade e apreciação. Assim, as duas cruzam o país sem destino determinado, tentando se desvendar das aflições do que deixaram para trás.

Longe de tudo e de todos, a tradução do que sentem começa a se definir ao longo dos dias, amplificando mais e mais o espaço que isto ocupa em suas vidas. Um sentimento que mobiliza todas as emoções e pensamentos delas. É a ramificação do processo de apaixonar-se pela primeira vez, tão intenso que torna módicos possíveis impedimentos como diferença de idade, classe social, gênero, experiências de vida e o tão opressor cenário no qual vivem, de normas ditadas pela altamente reacionária sociedade americana dos anos 50 pós-guerra. Os rumos desta viagem são orquestrados por Carol. É uma jornada de libertação para uma e descoberta para outra, mas sobretudo uma possibilidade de montarem, finalmente, as peças deste quebra-cabeça do que sentem, que até então vivera em suspensão, numa linguagem não mais do que telegráfica.

O desenrolar-se da relação de amor entre Carol e Therese dá-se ao longo do filme num grande compasso de espera, como que em conta-gotas. A história vai desabrochando em câmera lenta, numa cascata de inúmeras sutilezas, quase perpétuos silêncios e constantes viésses. Se vive a expectativa do que acontecerá na próxima cena com aflição porque as certezas e incertezas parecem fundamentadas no mesmo terreno movediço.Tudo é tão frágil, tenso e ameaçador para a existência e sustentação deste amor que acabou de germinar. Quando a paixão entre as duas é finalmente consumada, ambas são transformadas neste envolvimento emocional e físico que ultrapassa a superfície da pele de cada uma. Atingem o ápice do momento da mais completa entrega, o desejo de estar vivo no outro, entrelaçado nas emoções do outro, incondicionalmente. Um instante mágico, pautado na mais profunda das sensibilidades... Carol e Therese dão vazão a tudo o que sentem numa linguagem na qual a pureza da reciprocidade dos afetos orquestra reações, desejos, necessidades, compassos, caminhos...

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Entretanto, quase que imediatamente acontece uma ruptura neste viver a intensidade do sentimento. O relacionamento de ambas é investigado e descoberto. Diante do risco de um escândalo que poderia comprometer a conquista da custódia da filha, Carol se vê na encruzilhada de ser forçada a escolher entre levar em frente a paixão por Therese ou abdicar da convivência com a filha pequena a quem tanto ama. Sem saída, cede a pressão imposta pela chantagem do ex-marido que não aceita perdê-la para outra pessoa. Retorna para casa, interrompendo qualquer possibilidade de comunicação com Therese.

A jovem Therese é deixada no quarto de hotel, onde na noite anterior ambas haviam vivido a impetuosidade de seu delicado romance. Devastada física e emocionalmente com o afastamento daquela que lhe roubou o coração, é forçada a amadurecer no meio desta árdua desolação. Cria um escudo racional e, ao longo do tempo, assume as rédeas da própria vida. Segue em frente em direção às ambições profissionais enquanto tenta lidar com a dolorosa ausência de Carol. Carol, igualmente, procura seguir o mesmo caminho, a despeito do sofrimento, humilhação e devastação causados pela mudança brusca dos acontecimentos vividos e o regresso à condição de sentir-se engessada novamente no mundo do qual tentou se libertar.

O tempo segue sua inexorável marcha e depois de tão reféns das metamorfoses que as circunstâncias impuseram na vida de ambas, um dia se reencontram. Desta vez, em contraste com o cenário do primeiro encontro, Therese surge lapidada, auto-confiante, exibindo charmoso requinte. Carol se mostra a figura frágil, deslocada, sem saber onde se firmar. Carrega com ela a culpa de ter deixado Therese sem precisas explicações e o medo de Therese ter desenvolvido um profundo rancor por ela. Therese à princípio, mostra-se árida, distante, austera, desconfiada como um pequeno animal ferido. Mas só na superfície das palavras e de certos gestos, porque o olhar de fascinação por Carol, que sempre nutriu, continua indisfarçável, cheio de brilho, como que sob um encanto, apesar de extremamente questionador, ávido por respostas que foram deixadas caladas. Carol, sentindo-se vulnerável e quase indefesa, igualmente observa Therese com interesse, fascinação, admiração e profundidade, tentando desvendá-la. Numa certa altura da conversa, expressa a vontade de que vivam juntas, algo que Therese imediatamente rejeita. Ainda sim, humildemente Carol confessa que a ama. Embora silenciosa desta vez, Therese parece extremamente tocada. Antes que dê tempo de fazer o movimento de dizer algo, acontece uma interrupção brusca na conversa delas. Carol deixa o lugar e Therese toma um rumo para outra localidade, mas as palavras de Carol continuam a ecoar dentro dela intensamente. Além do que, aquela imagem extraordinária, reluzente, encantadora permanece impregnada em Therese.

As horas passam, a noite chega. Therese se vê rodeada pelas pessoas com quem sempre conviveu. Observa a todos com o distanciamento de quem nunca se sentiu pertencendo àquele universo, àquelas conversas, àquelas escolhas. E então, diante da solidão que sempre sentiu no meio daquela multidão, sai decidida à procura de Carol. A reencontra num restaurante. Esta cena de quando o olhar de ambas se encontra é um dos pontos mais altos do filme porque é um instante do mais extraordinário significado! A expressão máxima de um amor revelado num simples olhar. Sempre o olhar, o olhar que permeou o relacionamento delas deste o princípio. Apesar da passagem do tempo e das mágoas e dores que marcaram as vivências de ambas, o amor uma pela outra heróica e inabalavelmente sobreviveu, agora finalmente com uma chance de ter um destino promissor. Um amor que criou raízes em ambas e amadureceu. Aquele descobrir do primeiro apaixonar-se foi intenso demais para sucumbir até mesmo às tumultuosas marés de tempestades que se desdobraram no processo do viver. Carol e Therese foram transformadas para sempre por este amor que aconteceu como todos os amores acontecem: inesperada e arrebatadoramente.

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"Carol" é um filme de fotografia deslumbrante. Cada cena foi pensada em infinitos ângulos, como que borbada à mão. A trilha sonora segue o fluxo dos sentimentos das personagens principais. É delicada, leve, toca a alma. O diretor do filme, Todd Hayes, um mestre em retratar a América dos anos 50, confirma mais uma vez que tem um talento ímpar para traduzir nas telas as muitas sutilezas e belezas do universo feminino como poucos. O resultado do trabalho dele se prova verdadeiramente brilhante e de um bom gosto primoroso. Se tem a sensação de que o filme é uma mistura de sonho e realidade. É mágico acompanhar o movimento da câmera e o que ela destaca nas cenas nas quais se projeta o fascínio crescente de Therese por Carol. O figurino criado pela talentosa Sandy Powell é belíssimo, especialmente na intenção de enaltecer a elegância e a sofisficação da personagem Carol, sempre impecável, como se fosse uma estrela de cinema de vida real 24 horas por dia.

Cate Blachett que já consagrou tantas e tantas vezes seu inato talento de atuar, continua a ampliar mais e mais os ângulos de sua impressionante versatilidade como atriz. Seja qual for o roteiro que chegue às suas mãos, alcança distâncias e alturas transpostas por poucos na sua arte de atuar. Sua Carol é feita da mais intensa sensualidade, maturidade e infinitos desdobrares. Os olhares de Carol são um espetáculo a parte. Olhos que brilham singularmente, que questionam indiscriminadamente, que seduzem irresistivelmente, que amam intensamente. Suas mãos se destacam muitas vezes no filme. Têm uma linguagem própria de expressão, de magnetismo. O rosto, o olhar e as mãos de sua personagem constróem o desejo no coração de Therese com uma engenhosidade irrepreensível, sem paralelos. Cate Blanchett desfila sua imperial presença na tela com um charisma inesquecível. Nos faz querer, como Therese, salvar Carol, libertá-la, tirá-la do angustiante casulo onde é obrigada a permanecer por boa parte da história.

A Therese de Rooney Mara cria um lindo contraste com Carol. É muito tocante o misto de inocência e impulsividade que ela expressa. O magnetismo que sente por esta mulher é de uma poesia rara. Apesar de Carol ser plenamente experiente quando Therese ainda está no início do processo de construção das próprias vivências e convicções, o sentimento puro que demonstra por Carol a pega de surpresa e como numa emboscada a tira do isolamento da sua tão remota existência interna, projeta uma nova luz na sua vida, tão vital! Seria impossível Carol não se deixar render enamorada pela suavidade com a qual Therese a admira, o interesse que demonstra pelo seu universo emocional, sua determinação em ajudá-la, descobrí-la, alcançar sua essência por detrás de seus necessários escudos e máscaras. A absoluta devoção de Therese torna Carol vulnerável no sentido da entrega sem reservas, sentimentos e desejos que teve que manter represados por tanto tempo. Esta é a formidável força que compele uma em direção a outra, esta fragilidade emocional que partilham.

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Testemunhar o desdobrar desta relação de paixão tão genuína entre tais personagens singulares faz cada um de nós lembrar das próprias histórias, quando nos apaixonamos pela primeira vez. Um labirinto de surpresas, questionamentos, inquietações, descobertas, sentimentos confusos no princípio, para se tornarem reveladores e transformadores mais tarde.

É exatamente esta dança de muitos passos que não se sabe exatamente para onde irão levar no próximo movimento, já que se trata de um terreno desconhecido, que torna "Carol" um filme sentido visceral e apreensivamente. Uma obra de personagens arrebatadoramente sedutores, deslumbrantes, sensíveis e inesquecíveis. Cate e Rooney souberam traduzir o amor tão soberbamente nas suas atuações... Excepcionalmente cativantes, deixam suas marcas na gente, despertam paixão em nós por elas. Carol, especialmente, é uma personagem que, mesmo depois que se deixa a sala de cinema, continua a existir, a exercer uma indelével influência nas nossas emoções... Uma figura para não se esquecer jamais e um filme para nunca se deixar de se surpreender e celebrar.

"Carol" é uma profundamente encantadora história de amor exibida como uma obra-prima. Um lindo sentimento que é deixado em êxtase para quem quiser abraçá-lo e traduzí-lo nas próprias emoções, nas próprias vivências, nos próprios sonhos.

A VELHA SENHORA...


A velha senhora, sentada naquela varanda  contemplava o passado, que estampado estava quadro a quadro sobre sua memória.

Expressava no rosto marcado pelo caminhar ininterrupto dos dias o orgulho inato daquele que venceu batalhas amargas e que fora capaz de construir fortalezas feitas de esperança, bravura e dignidade.

Suas estórias eram feitas de cores, sabores, texturas, aromas, movimentos, sabedoria, criatividade e atitudes desprendidas. 

Conhecera muita gente ao longo do caminho. Deixara uma semente da própria essência em cada uma delas. 

Olhava para o horizonte com a certeza de que tudo fez para aprender e ensinar, amar e realizar,  unir e nunca subtrair. 

Celebrava a autenticidade das crianças, a impetuosidade dos jovens, as respostas precisas dos crescidos, os legados dos falecidos.

A velha senhora sentada naquela varanda, se atrevia a ter sonhos audaciosos. Por fora, quando se olhava no espelho, se via como uma folha seca.  Mas por dentro, se sentia como as raízes de uma árvore que estão sempre em compasso de nutrir  e diante de qualquer que seja a tormenta e ventania, jamais suas forças deixam abalar ou sucumbir. 

-Simone-

(foto fonte:www.maierandmaierphotography.com/portrait-women/ portrait-old-lady-wrinkles-kolkata-west-bengal-india)

POE


No espelho quebrado
Vi uma imagem
De um eu
Que não era o meu...

Um estranho
Sem nome
Sem horizonte
Que de todos se esconde...

Um ser atormentado
Pelas agruras do passado
Sofrimento inato
 Dor profunda no anonimato...

O calabouço de um indivíduo
Perdido na tormenta
Incurável e pestilenta...

Portas fechadas
Janelas trancadas
Caminhos destruídos
Pensamentos enrijecidos
De sentimentos destituídos...

Achou que viveu
Mas não passou de um mito
Poeira esquecida
Além do infinito...

-Simone-

MEI E LAN...


Mei and Lan viviam num lugar remoto do interior da China. Eram mudas de nascimento e não aprenderam a linguagem convencional dos sinais, mas se comunicavam sem problema algum. Os olhos delas falavam só o que era importante, as mãos contavam estórias, os corpos se moviam em absoluto alinhamento de significados. Elas eram especiais, Tinham dons desconhecidos aos passantes que olhavam para elas com curiosidade.
 
Mei gostava do céu. Lan gostava do mar. Juntas desfrutavam destes dois mundos particulares. Mei dizia que o céu era uma pintura de aquarela, porque estava sempre mudando de tons. Lan, por sua vez, dizia que o mar era um dançarino hipnotizador, por conta dos movimentos das ondas, numa metamorfose de ir e vir sem fim.
 
Mei um dia levou Lan para conhecer o céu. Revelou os mistérios por detrás das nuvens de algodão. Juntas se perderam no degradê das cores, da imensidão celeste, de infinitas possibilidades de sonhar para o além de outras dimensões. Lan descobriu anjos em forma de borboletas e jardins feitos de purpurina turquesa em suspensão. Raios de sol espalhavam seus tentáculos por toda a parte. O céu era um lugar místico, no qual as leis da física eram outras e a vontade de ficar era avassaladora.
 
Lan, em agradecimento, convidou Mei para mergulhar no mar, depois que voltaram do céu. Mei revelou que o mar dançarino era um conquistador. As ondas braços acolhedores que levavam para uma viagem além do horizonte. O som do mar feito de acordes doces e precisos. As melodias guias que conduziam-nas por entre seus muitos mistérios. Todos os tipos de criaturas marinhas acompanhavam a jornada das duas moças chinesas perdidas em inebriante fascinação.
 
Anoiteceu. Dentro do mar Mei and Lan adormeceram. Deixaram-se levar para onde o dançarino mar quisesse conduzí-las. Embaladas foram em sonhos audazes e inesquecíveis. O mar movia seus corpos como duas folhas náufragas além mundo. Foram tragadas pelo encanto daquela calmaria sedutora.
 
Quando acordaram, Mei e Lan olharam uma para a outra com surpresa. Durante o sono no qual se perderam no enredo do mar, foram transformadas em sereias. O oceano dançarino não resistiu à poesia daquelas duas extraordinariamente singulares almas e tornou-as cativas no seu  universo indomável.
 
-Simone Bittencourt Shauy-
 

RITUAL DE UM ENCONTRO...


Uma das melhores sensações do mundo é viver o ritual da preparação para encontrar alguém que a gente gosta. 

No livro "O Pequeno Príncipe", a personagem Raposa diz ao Pequeno Príncipe que chegou fora de hora:

"Seria melhor se você tivesse vindo à mesma hora. Se, por exemplo, vier às 4 horas da tarde, às 3 horas começarei a ser feliz.  Vou me sentir mais e mais feliz à medida que a hora passa. Às 4 horas, estarei ansioso e saltitante. Mostrarei para você quão feliz me sinto! Mas se vier à qualquer hora, nunca saberei a que horas meu coração deveria estar pronto para vê-lo... É preciso criar rituais..."

A gente perde o sono cedo. Acorda com uma apreensão que dá um sorriso nos lábios. Aquela coisa de saber que vai abrir o presente na noite de Natal sem ser Natal. Esperar para encontrar alguém que a gente gosta é um misto de muitos sentimentos: curiosidade, expectativa, mistério, ansiedade, deslumbramento. Até brincamos de querer atrasar o encontro para continuar vivendo tamanho deleite. 

Antes de deixarmos a cama, já estamos com os pensamentos ocupados construindo mil cenários possíveis do encontro. Imaginamos a outra pessoa sentada ao nosso lado, feliz de nos abraçar também, tão entusiasmada quanto. 

Ao levantarmos, é com decisão! Olhamos para o espelho e até sorrimos para ele de um jeito maroto, como as crianças fazem. A gente se vê meio que rindo à toa porque é apaixonante deixar marinando este suspense todo. 

Abrimos o guarda-roupa e aí começa o drama de decidir o que vestir. Queremos estar bonitos para o outro. Mas não é só isto! Apreciar a outra pessoa, pensar em causar uma boa impressão para ela, também faz a gente se gostar mais, se valorizar mais. 

À esta altura, o coração já está descompassado. A única imagem que enxergamos na frente agora é o rosto da outra pessoa emoldurado na nossa imaginação. Esta imagem causa um turbilhão de emoções em desalinho!

Estamos no lugar marcado, esperando... O encontro nunca tão perto de acontecer. Dor no estômago, taquicardia, sapo na garganta, respiração superficial, aflição, inquietude. Os ponteiros do relógio parecem morrer de preguiça de ir para a frente. Nossos olhos saem a procura daquele rosto especial na multidão. 

Pronto! A pessoa tão esperada chegou!

Agora tudo acontece em câmera lenta. A visualização, a aproximação. É um momento de absoluta felicidade e gratificação! Os cientistas dizem que ficamos com nossas pupilas dilatadas quando estamos diante de alguém que gostamos. Sem dúvida, nossos sentidos ficam em alerta absoluto porque queremos captar tudo o que a pessoa nos significa, nos faz sentir, até mesmo sem sequer saber.  

Olhos nos olhos. Olhos que traduzem tudo, dispensando palavras. Sorriso às vezes largo, às vezes tímido. Mas um sorriso de indisfarçável satisfação. Aí vem aquele abraço gostoso, maravilhoso, a proximidade de coração e alma. Aquele abraço que se deseja congelar no tempo e no espaço! É como trazer a pessoa para dentro da gente e a gente dentro dela. Queremos aquela pessoa só prá gente para viver caichoeiras de troca de afeto, estórias, memórias, novidades, nosso universo de vida inteiro! 

Como é bom gostar de alguém e ser gostado do mesmo jeito... É a melhor das sensações! Uma íncrível realização emocional! É aquela plenitude, aquele lugar onde queremos viver imersos ad eternum. Nosso paraíso particular! 

A pessoa está ali, em carne, ossos, cores, sorrisos, olhares, afetos, sonoridades, aromas, com gosto e alegria como estamos. Ficamos com pressa de estar com o outro, na presença do outro. É incrível o quanto existe de troca num encontro assim, especial... Tanta coisa fica pairando no ar, que é absolutamente mágica!

Que delícia se estar com quem nos faz sentir em casa! É porto-seguro, lugar aconchegante, aquela loja de doces inteirinha  para a gente se perder nela. É uma barra de chocolate, um bolo de cereja, um sorvete caprichado, um presente inesperado. Pode ser tudo isto e muito mais!

Sentimos vontade de tocar a pessoa de todas as formas: coração, alma, corpo, sentidos, até por telepatia. É um prazer intenso de demonstar o gostar, amizade, bem querer, de convidar o outro a se sentir aceito, amado, admirado, visto, querido, cortejado.

Estes momentos nos fazem esquecer que pertencemos a outros mundos. Todo o resto  parece parar de existir, de se mover, de influenciar o aqui e o agora. A vida fica circunscrita àquele particular instante, àquele único indivíduo, àqueles singulares sentimentos, quereres, buscares, partilhares... Este gostar é céu, terra, água e ar. É noite e dia. É tempo e é espaço. É respiração e pulsação. É vendaval e calmaria. É chuva, sol, arco-íris. É ganho, só ganho. Mesmo quando a gente se perde no outro, o outro vive na gente, também se perde na gente, se funde na gente.

Ah! O encontro com quem se gosta... Faz tudo parecer cativante, encantador, eletrizante, edificante, transformador, inebriante, absolutamente irresistível! 

Durante a conversa, são sorrisos, olhares, toques, construção de cenários feitos de sentimentos, afinidades, personalidades. Palavras ou podem brotar aos montes ou ser apenas meros detalhes quando os significados se criam nas sutilezas. A comunicação acontece de muitas formas. Expressões faciais, gestos com as mãos, posição do corpo um diante do outro, movimento dos olhos, temperatura da pele, silêncios, hesitações, impulsos. Tudo, consciente ou não, tem um propósito, endereço certo, impacto, uma tradução particular. 

Depois da despedida, entra em cena aquela saudade típica, o desejo de encontrar tudo de novo. Tudo o que nos tocou permanece em suspensão... na nossa suspensão! O outro vai, mas fica com a gente. Nas próximas horas iremos viver de novo um bocado de cada coisa que aquele encontro fez nascer. Traduzimos as impressões. Na memória, evocaremos tudo aquilo nos mínimos detalhes, acrescentaremos mais temperos, cores e energias e tudo vai se metamorfosear dentro da gente, nos transformará, nos manterá felizes, gostando mais e mais, mais especialmente, mais profundamente!!

Vamos nos encontrar mais, muito mais!!! Deixemos, pelo menos naquele tempo do encontro, os aparelhos eletrônicos de lado. Vamos viver na ÍNTEGRA esta interação REAL, palpável, fisicamente revigorante, emocionalmente apaixonante. Vamos recriar o hábito de nos olharmos mais nos olhos de novo, abraçar com aquele gosto, prá valer, dar atenção para o outro como se ele fosse uma celebridade na nossa vida (porque é mesmo!). Um encontro é uma grande oportunidade de se reverenciar afeto, amizade, generosidade, calor humano, o senso de pertencer, de unir, de reinventar o verbo amar e praticar a conjugação de ser amado.

Os encontros são como capítulos de um livro. São estórias que se escrevem, personagens que se compõem, enredos que se desdobram, ritmos que se ajustam, sentimentos que se propagam, vidas que se completam, germinando outros capítulos... A vida é encontro e despedida, estória, memória, um ciclo ininterrupto de reinvenções, construções, revoluções, sensações...

-Simone Bittencourt Shauy-

O PREÇO DE SER MULHER...



Será que a saia está curta demais? O decote exposto demais? A risada alta demais? O olhar provocante demais? O convite explícito demais? O gesto vulgar demais? A conversa sugestiva demais? A maquiagem chamativa demais? O comportamento oferecido demais?

É estressante como no universo feminino coisas assim perpassam como um letreiro de propaganda na cabeça da gente. Nos questionamos todo o tempo. Existe sempre a preocupação com a nossa exposição, com o julgamento que será feito de nós moralmente, com nosso corpo como o que parece ser considerado o templo que determina nossa reputação frente à sociedade em geral e ao sexo oposto. 

No passado era assim... As mães, quando sabiam que a filha estava começando a namorar, sempre davam o conselho clássico: "Não deixe o rapaz tocar em "certas partes", não o deixe "avançar o sinal"." As meninas que deixavam os rapazes "avançarem o sinal" eram as meninas rotuladas de "fáceis", aquelas que não eram "de família", moças só para se tirar proveito, mas nunca apresentar para o outros, levar para a casa dos pais de jeito nenhum, muito menos casar. Meninas já marcadas como as "usáveis e descartáveis". 

O corpo da mulher sempre viveu a dicotomia entre símbolo de desejo e recato. A mulher deve ter orgulho do próprio gênero e do próprio corpo, MAS não é "de bom tom" ter o interesse ou a curiosidade de tocá-lo, observá-lo, até mesmo gostar dele em "certas partes", porque as tais certas partes são "sujas", "indecentes", "imorais". A menina cresce sendo doutrinada a acreditar que o que quer que toque no próprio corpo e dê uma sensação "diferente", é motivo para sentir culpa, é sinônimo de pecado. Se uma segunda pessoa então toca tais partes, sem ser num "contexto aceitável", como o casamento, pronto! Está qualificada a desqualificação da mulher!! 

O corpo da mulher numa escultura é sempre motivo de admiração, contanto que, pelo menos uma das tais "certas partes" esteja minimamente coberta. O que é no homem símbolo de virilidade e poder, na mulher é símbolo de vergonha e ultraje. 

Esta coisa do conceito de corpo, prazer e sexo para a mulher é toda fragmentada, porque quando a mãe diz para ela manter as pernas fechadas, não tocar as partes íntimas e não deixar ninguém tocá-las, não explica nada mais. Mas por que tem que ficar com a perna fechada? Por que posso tocar em algumas partes do meu corpo e em outras está errado? Por que se alguém tocar certas partes é tão "perigoso"? Todas estas perguntas ficam flutuando na cabeça da menina, depois da moça, e da mulher mais tarde, se não conseguir decodificar esta linguagem tão envolvida em segredos que parecem inconfessáveis. 

Quando a menina que foi subliminarmente doutrinada a sentir culpa das "certas partes", vira uma mulher, a culpa vai com ela. De repente, na noite de núpcias, tudo aquilo que era para ficar totalmente coberto, guardado, aprisionado, não tocado, é de "praxe" tornar-se permissível. Deste momento em diante, o sexo oposto assumirá "o comando" do uso de tais partes. Agora o desconcertante e inadimissível é a mulher não querer deixar ser vista, tocada, "utilizada" naqueles territórios outrora proibidos. 

O simbolismo do ato sexual é absolutamente desencontrado com a forma com que a mulher se protegeu. De repente, aquelas pernas que eram sempre para se manter fechadas precisam se abrir. Aquela parte estranha, secreta, uma incógnita perfeita, de repente é "invadida" por algo que nunca ninguém falou o que era e se podia. O rompimento da proteção do "compartimento secreto" envolve dor, sangramento, trauma. Para muitas mulheres, a penetração tem como significado uma violação de algo muito íntimo, o "dentro dela", o eu, os segredos, os medos, as inseguranças, culpas. Tudo do que mais protegeu, escondeu, defendeu, deixou trancafiado por detrás da culpa e do pecado que foram incutidos nela desde muito cedo. Sente-se vulnerável, descoberta, sem controle do próprio corpo, com a sensação de que existe algo muito errado nisto. São tantos os conflitos, as confusões, as paranóias, a solidão absoluta que o não saber traz...

Este é que é o grande problema de certos preceitos religiosos que discutem o pecado especialmente no que se refere ao universo feminino. Se diz é pecado, mas não se explica o por que de ser pecado. As avós foram criadas assim, criam as filhas assim e as filhas criam as filhas assim. Tudo isto é replicado sem explicações. Simplesmente se transfere o conceito de pecado, da culpa, da proibição sem se analizar o contexto. A mulher aprende sobre sexo caindo de pára-quedas na situação, completamente desavisada. 

No caso de uma mulher exposta ao procedimento radical da mutilação genital feminina, o ato sexual torna-se uma tortura, porque à ela é negado o direito de sentir prazer na relação íntima com um homem. Só a ele é permitido o prazer. Ter a possibilidade de sentir prazer para uma mulher nestas culturas é motivo de desonra, vergonha para a família. Só de se aventar, mesmo que em sonho, a possibilidade de uma mulher ter interesse em sexo é visto como a máxima indignidade. As meninas passam por tal procedimento entre as idades de 9 e 12 anos. Além de o procedimento ser fisicamente abominável, emocionamente tem um efeito completamente devastador! Como é que uma menina vai entender que uma parte que nasceu com ela vai precisar ser removida para melhorar suas chances de casar e ter uma reputação "acima de qualquer suspeita"?? Esta é a violação suprema do corpo da mulher, num círculo onde a família e a comunidade se sentem donas dos direitos dela de ser mulher. O mais inconcebível é ver que as mães submetem as filhas ao mesmo destino. Ajudam a perpetuar esta violência sistemática, institucionalizada contra o corpo feminino.   

Em outras culturas, a mulher é ensinada a cobrir-se da cabeça aos pés para não despertar o desejo sexual nos homens estranhos. A burca é o símbolo máximo de negação do feminino, a destruição da identidade feminina diante do mundo. A mulher é simbolizada como uma pecadora ambulante, uma provocadora e consequente merecedora de uma "lição", caso se atreva a expor partes do corpo, ou dizer o que pensa ou o que quer ou que não quer. 

m muitas instâncias, o ser mulher ainda é cercado de muitos tabús, simplesmente porque ainda há muita coisa velada, escondida, julgada como inapropriada, pecaminosa, impúdica. A mulher é intitulada como a responsável por carregar o troféu da moral do mundo, um atributo não escolhido, que vem por tabela. Sempre quando o assunto é pecado, e um pecado supostamente causado por uma mulher, está associado quase que exclusivamente a uma "contravenção" de cunho sexual.  É um conceito que se perpetua ad eternum. 

Ser mulher exige coragem, amor-próprio, convicção e determinação. Somos bombardeadas por constantes questionamentos a respeito das nossas escolhas, do que fazemos com nosso corpo, como nos relacionamos com o sexo oposto ou o mesmo sexo, em família e em sociedade. Vivemos sob constante e implacável escrutínio. Somos sabatinadas permanentemente, pré-julgadas, rotuladas, perseguidas, questionadas, analizadas sob a lente de um microscópio, porque ser mulher, por si só, tem repercussão. Parece haver um abalo sísmico no mundo todas as vezes que mulheres tomam as próprias decisões, quando buscam ser líderes, falam o que pensam e tomam para elas as rédeas de como querem ou não ser tocadas.

Apesar de estarmos em pleno século XXI, continuamos vivendo num patriarcalismo arcaico algumas vezes explícito, outras vezes velado. Embora possam fazer uso de métodos/estratégias diferentes, ambos objetificam a mulher e tentam controlar a expressão dela nas relações. Mulheres podem ser apedrejadas, torturadas, estupradas, desfiguradas porque já se assume que a mulher é uma transgressora, o bode expiatório de toda e qualquer coisa que pareça torpe aos olhos dos hipócritas e ignorantes que se posicionam de acordo com o que lhes convier.
Criam-se leis, modas, preceitos, códigos para se tentar enquadrar a mulher numa moldura. Precisa ser aprisionada, sua honra e moral mantidas em cativeiro.  A grande incongruência disto tudo é que, muitas vezes, aqueles que a oprimem são os mesmos que a cobiçam. Muitos dos mesmos homens que aprisionam, questionam, julgam as mulheres com as quais convivem dentro de casa, são os que mais cobiçam aquelas que vêm nas ruas, numa capa de revista, num filme, etc. Existe a escravidão da beleza, da moda e do moralismo, ignorância e machismo recalcitrantes! 

É preciso admitir que homens e mulheres são igualmente culpados por perpetuar este círculo vicioso de manipulação do que uma mulher deve ser diante do mundo. Os homens tentam determinar o que a mulher deve ser e como deve se comportar. As mulheres, especialmente as mães, contribuem para fazer cumprir tais normas por motivos religiosos, por falta de instrução, por não conhecer os próprios direitos ou porque, simplesmente, se conformam em viver sob dominação e não acham que existe algo errado nisto. Muitas vezes a mulher confunde dominação com proteção. E é aí quando se torna um pedaço de argila que vai ser moldado pelas mãos de quem a oprime, quem se sente no direito e no dever de determinar o valor dela como mulher no centro da família, na relação com o sexo oposto e na sociedade em geral. 

Por mais feminista que este discurso possa parecer, a questão da opressão contra a mulher é uma realidade que parece nunca sair de moda. Muitas mulheres têm sido vistas, tratadas e retratadas sob um prisma profundamente misoginista e utilitarista ao longo da História da humanidade. E isto tem um efeito muito destrutivo nas nossas auto estima e imagem desde muito cedo, antes mesmo que nos demos conta do que ser mulher significa de fato e até muito mais tarde, quando já não dá mais tempo de mudar estes conceitos, a não ser, quem sabe, em prol das próximas gerações. 

Simone Bittencourt 

UMA ESTAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO...


Quando a primavera chega é como se a natureza acordasse para um renascimento. Assim que o sisudo inverno chega ao fim, as metamorfoses começam a se desdobrar em todas as direções. Os galhos nús e crús das árvores passam a ensaiar timidamente os primeiros brotos. As flores a espalhar amostras de perfumes dos mais diversos no ar. Os aromas se fundem em mil combinações. Os gramados queimados, ressecados, vão adquirindo tonalidades novas todos os dias. De um desbotado, floresce num verde profundo, austero, impressionante...
A primavera tráz com ela uma energia que explode na alma. Revigora nossos sentidos, nos torna mais abertos, atentos, vivos, enternecidos. 
Céu azul, dias de sol radiante, brisa fresca e suave, natureza no auge do seu magnetismo, encanto e poesia. Cores, sabores, aromas, transformações trazendo de volta nosso senso de existir, pertencer ao universo, ser bem-vindo a fundir nossa natureza com a dela. Todas estas energias, estas forças criando um redemoinho irresistível que é o pulso da vida. 

-Simone-


O BRASIL SOB PROTESTO


Uma vez mais
Os brasileiros foram às ruas
Para protestar contra as calamidades 
Causadas por um governo desonesto
Inúmeras disparidades
Um mar de desigualdades

Agora o que se pede é o impeachment
Da atual presidente Dilma
Que está sob imensa pressão
Por conta dos abomináveis escândalos de corrupção
Do seu governo envolvido  no "mensalão" e "petrolão"

O Brasil tem uma história de corrupção no governo
De longa data
Mas desta vez a robalheira foi tanta
Que muitas pessoas
Da noite para o dia
Emergiram de anônimos profissionais
 Para magnatas colossais

Dilma não é a única culpada
Mas sendo chefe da nação
Tornou-se símbolo máximo de contravenção
Por detrás há gente muito mais influente
Com todos os interesses que ela permaneça
Para conseguirem o que querem
Roubarem o máximo que puderem
Mantendo-se no palco do poder 
O tempo que quiserem

O grande problema das manifestações no Brasil
É que as pessoas vão às ruas 
Sem antes terem pensado num plano de ação
Sem isto é só uma questão de tempo
Para o povo todo voltar para casa
E continuar tendo que lidar com escândalos de corrupção
Alta inflação
Um país mergulhado em estagnação
E uma sociedade em degradação

É preciso critério, diretrizes, metas
Para se mudar um país
Cartazes, panelaços, gritos, xingamentos
Não são estratégias sustentáveis a longo prazo
Senão infelizmente tudo volta para trás
E o povo ficará mais e mais desacreditado
Com fama de subjugado
Não importa quão injustiçado e desrespeitado

O grande problema é que a falta de moralidade e ética deste governo
Permeia vários setores da sociedade
Sistema judiciário
Congresso Nacional
Câmaras de deputados e senadores
Governadores, prefeitos
Parte dos empresários
Até mesmo as imprensas falada, televisada e escrita 
Muita gente  sendo no esquema de corrupção favorecida

O Brasil precisa de uma revolução da decência
Tolerância zero para crimes de colarinho branco
Extinção da impunidade
Acabar com da Justiça a ambiguidade
A contravenção vive gozando de plena promiscuidade
Chega também desta abismal desigualdade
É muita desonestidade
Desastrosa realidade

O Brasil é um grande país
Mas que precisa de uma reforma geral
Social, moral, ética e política
Investir na educação tem que ser prioridade absoluta
Para que o povo  aprenda a ter mais  massa crítica
Não venda os votos barato
Para todo e qualquer político descarado
Chega de o povo ser na própria dignidade violado!

-Simone- 

GLÓRIA SWANSON, UMA MULHER DE MUITOS PLURAIS...

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Antes de Greta Garbo, Joan Crawford e Bette Davis, houve Glória Swanson. Quando a divina Garbo acabara de chegar em Hollywood, Glória Swanson já havia feito algumas dezenas de filmes e sido a primeira atriz a tornar-se produtora cinematográfica. Inteligente, curiosa sobre tudo e sobre todos, carisma singular, talento sagaz, ávida aprendiz, mãe amorosa, estrela de cinema grandiosa, produtora pioneira, designer de moda apaixonada, pintora, escultora, empresária, sempre interessada em expandir suas possibilidades de conhecer mais e crescer sem limites. Personificou vanguarda, estilo e glamour! 

Glória Swanson nasceu no ano de 1899, em Chicago, Estados Unidos. Desde cedo, nada na vida dela foi corriqueiro. A mãe confeccionava roupas exclusivas e bastante produzidas para que a filha estivesse sempre bonita e se sobressaísse no meio da multidão. Glória dizia que havia sido sempre "one of a kind". Era tímida com relação a tudo, menos ao modo como se vestia. Ainda durante sua infância, mudou-se com a família para Porto Rico e lá foi chamada de a "princesa cubana", por seu cabelo muito escuro e os grandes e expressivos olhos azuis. 

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Seu sonho desde cedo era ser cantora de ópera, mas acabou conseguindo uma oportunidade para fazer filmes ainda bastante jovem numa companhia de cinema chamada Essanay, lugar onde conheceu o ator Wallace Berry com quem se casou aos 17 anos. 

O produtor Mack Sennett, considerado o rei da comédia, queria fazer dela a próxima Mabel Normand (estrela de cinema mudo que havia se tornado muito popular em comédias). Glória respondeu: "Não quero ser uma outra pessoa!" Descontente estava como uma das "bathing beauties" (atrizes novas que posavam de roupas de banho), irritada por ficar exposta a todo tipo de escárnio nas cenas de comédia estilo pastelão, as quais achava por demais degradantes, tomou a decisão de pedir as contas. 

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O grande impulso em sua carreira aconteceu quando foi contratada pelo legendário diretor de cinema Cecil B. DeMille, famoso por criar filmes grandiosos. "Male and Female" uma super-produção de 1919 lançou-a ao estrelato. Num momento memorável, Glória divide a cena com um leão debruçado sobre ela. Confessou que ouvir o rugido do leão tão próximo foi a experiência mais extraordinária, fascinante e assustadora que já viveu. Gostava de ser desafiada e quanto mais risco havia, mais desejo tinha de se expor a ele. 

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Aos vinte poucos anos já era a maior estrela da Paramount e a atriz mais bem paga do cinema na década de 20. Contracenou com o grande galã romântico da época Rodolfo Valentino, com quem manteve uma afetuosa amizade até a morte prematura dele. Enquanto aproveitava férias na França, Swanson participou de uma produção franco-americana (primeira na história) chamada "Madame Sans-Gêne". Durante o filme conheceu e casou-se com um marquês francês, que era o seu tradutor.  

Na América, ao saber do sucesso do filme estrangeiro e do casamento que lhe deu o título de marquesa, voltou aos Estados Unidos em grande estilo, sendo aclamada nas ruas por uma multidão de pessoas. Poderia este ter sido o clímax de sua carreira, mas para ela tudo foi uma  extravagância publicitária bancada pelo estúdio para lucrar explorando sua vida privada. Sob o seu ponto-de-vista, as pessoas estavam celebrando-a como uma personalidade, não pelo seu talento como atriz. Disse: "Daquí para frente, quero que as pessoas julguem minha performance, não minha personalidade." 

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Abriu mão de um contrato de 1.000.000 de dólares e um  salário de 22.000 dólares por semana, além do status de maior estrela da Paramount, para se juntar a um outro estúdio, fundado por Charles Chaplin, Douglas Fairbanks and Mary Pickford chamado United Artists. Abraçou o desafio de lançar-se como produtora de seus próprios filmes, criando a companhia "Gloria Swanson Productions, Inc". 

Conseguiu os direitos de filmar uma obra que seria considerada polêmica demais no sentido moral e religioso, que vários estúdios queriam produzir mas não podiam por conta do Código Hays, implementado para "resgatar" a moralidade nos filmes considerados, antes dele, subversivos, obscenos, religiosamente ofensivos. Com sua perspicácia típica, Glória, que nunca desistia de um propósito, conseguiu produzir "Sadie Thompson" (1926) com grande sucesso, burlando hábilmente o crivo do tal código da moral e dos bons constumes. O filme conta a história de uma prostituta que é sistematicamente perseguida por um missionário fervoroso obcecado por convertê-la, com o intuito de, segundo ele, libertá-la da promiscuidade. Mas, no final, este homem profundamente moralista se rende aos braços dos mesmos pecados que condenou e comete suicídio. 

Nesta mesma época, Glória viveu um romance intenso com o patriarca da família Kennedy, Joseph Kennedy que ficou fascinado por ela e pelo mundo do cinema. Kennedy investiu dinheiro para produzir um filme suntuoso chamado "Queen Kelly", dirigido pelo diretor austríaco Eric von Stroheim (considerado um dos diretores mais sofisticados do cinema) e atuado por ela, mas que foi fadado ao fracasso pelo imenso dispêndio de dinheiro, tempo e, sobretudo, por conta da excentricidade do diretor. O filme não chegou a ser concluído, mas apareceu como um pequeno clip num filme que ela faria mais tarde. 

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Após produzir alguns filmes e se desencantar com Hollywood, resolveu focar a carreira em outros interesses. Criou uma empresa de invenções científicas chamada "Multiprises" e fez esforços hercúleos para conseguir trazer aos Estados Unidos cientistas judeus que, na época, já estavam enfrentando muitas dificuldades de deixar a Europa por conta do regime Nazista. Como foi um período muito conturbado em plena Segunda Guerra Mundial, Glória não conseguiu decolar nesta empreitada.

Em 1944, tornou-se uma ardorosa simpatizante de alimentação saudável, sendo a pioneira no movimento de comida orgânica. Virou uma ativista realmente leal a causa, tentando combater o uso de pesticidas nas plantações e lançando uma linha de cosméticos ("Essence of Nature Cosmetics") com o intuito de fazer as mulheres usarem produtos de beleza que fossem seguros e com ingredientes saudáveis. 

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Na mundo de moda aventurou-se com semelhante devoção, já que desde cedo havia sido considerada a pessoa que melhor sabia se vestir em Hollywood.  Através da associação com Neiman-Marcus, criou modelitos para uma das  mais requintadas lojas de moda de Nova York através da Puritan Fashion. Ficou responsável pela linha "Young Forever". Foi incluída entre grandes nomes da alta costura internacional como Givenchy e Dior. 

Em 1949, foi convidada a atuar num filme produzido pela Paramount chamado "Crepúsculo dos Deuses" ("Sunset Boulevard"). Sua personagem era uma ex-estrela de cinema mudo de meia idade vivendo confinada numa tétrica mansão, que nutria uma obsessão cega por retornar às telas quando, na realidade, havia sido esquecida fazia muito tempo pelo público, mas vivia em negação total com a realidade. O filme foi considerado um dos melhores já feitos na história do cinema e um enorme sucesso para Glória que exibiu uma performance extraordinária. Por ele, foi indicada pela terceira vez ao Oscar de melhor atriz (primeira indicação por "Sadie Thompson" (1928), segunda "The Trespasser" (1929)), desta vez em 1950, perdendo para Judy Holliday. Uma das frases mais famosas da personagem dela foi: "I AM big! The pictures that got small!" O problema foi que o público assumiu que o filme havia sido baseado na história real de Glória Swanson, como se ela e Norma Desmond (personagem) fossem a mesma pessoa. Sempre ressentiu-se muito pelo fato de as pessoas se lembrarem dela muito mais por tal personagem. Outros convites para que fizesse papéis semelhantes de estrelas de cinema decadentes foram recusados. Seu último filme para o cinema  foi "Aeroporto 1975" no papel dela mesma.

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Com o fim de sua carreira cinematográfica, lançou-se a um novo desafio, atuar desta vez no teatro, algo que achava não seria capaz, mas com a insistência de um amigo aceitou. Fez varias peças e chegou a fazer sucesso na Broadway. 

Mais tarde, recebeu um convite para criar o design de um selo comemorativo da Nações Unidas sobre a década da mulher 1976-1985. As esculturas que produziu foram igualmente apreciadas. Possuía um inquestionável talento para artes. 

A vida de Glória Swanson foi uma memorável jornada de altos e baixos, mas sempre em grande estilo, porque ela era como uma fênix que, não importa o que vivesse, sempre renascia das cinzas. Mulher de muita fibra, determinação, personalidade, singulares virtudes, com uma habilidade para se conectar com as pessoas e abrir portas de oportunidades sem igual. Foi a eterna apaixonada aprendiz. Chegou a sofrer ostracismo quando teve um romance com o ator Herbert Marshall, mas a verdade é que nunca ficou longe do spotlight de um jeito ou de outro.

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Nos seus muitos plurais, Glória Swanson engrandeceu o universo feminino de um modo poderoso, genuíno e cativante. Uma pessoa absolutamente notável e inspiradora. Uma estrela de cinema e uma estrela de vida real. Menina que nasceu com brilho próprio, o qual reluziu sua vida inteira. Tinha estilo, um estilo muito particular, confiança, coragem e inata sofisticação. Gostava de tudo que pudesse lhe fazer sentir cheia de vida, tinha um espírito de aventura na essência, era apaixonada por ela e por muitas outras pessoas. 

O pai de Glória costumava dizer que a vida era feita 95% de expectativa e 5% de realização. Ao que parece, Glória fez da vida dela 95% de realização e 5% de expectativa. Costumava dizer que no seu epitáfio estaria escrito: "Ela pagou todas as contas." Segundo ela, esta foi a história da sua vida privada. Glória Swanson, uma das maiores lendas de Hollywood e uma das mulheres mais fascinantes e empreendedoras que o mundo já conheceu.
   




AMAR DIFERENTE CONTINUA SENDO AMAR...



Homens que amam homens. Mulheres que amam mulheres. Ainda em muitas  sociedades, um tabú. Nas mais radicalmente conservadoras, a homossexualidade é considerada um crime capital, passível de morte. 

O preconceito e a discriminação são "entidades" que julgam somente a superfície das pessoas, porque se for para fazer uma análise interna, concluir-se-á que homens que amam homens e mulheres que amam mulheres são, não só fisiológica e anatomicamente idênticos aos homens que amam mulheres e às mulheres que amam homens, mas também tão emocionalmente quanto.

Tem muita gente que diz que homossexualidade é uma escolha. Mas se uma pergunta for lançada para os heterossexuais, como por exemplo, em que momento da vida deles escolheram ser heterossexuais, como será possível achar um argumento realmente plausível como resposta? Assim que os bebês nascem, não existe uma máquina com dois botões (1 para homossexualidade e outro para heterossexualidade) para que façam a escolha da orientação sexual que desejam. Acho que a única diferença é quando o homossexual na adolescência ou na vida adulta decide escolher suprimir sua orientação por medo do preconceito, por medo de não ser aceito, ser discriminado. Então ele "assume-se" heterossexual e vive uma vida de faz-de-conta, anulando muito do que sente, sacrificando sua realização emocional para poder pertencer a um mundo que resiste  a aceitar a essência dele se for diferente do que é ditado ou esperado como regra.

A opção de amar de alguém, seja de que sexo for, é uma questão muito particular, que deveria concernir somente aos envolvidos, não à uma sociedade inteira, tradições culturais ou regras religiosas. Individualidade é um direito a ser respeitado e mantido. Não deveria ser exposto a nenhum tipo de sabatina ou negociação. 

Acabamos vivendo numa sociedade hipócrita que condena certos tipos de orientação sexual, mas é passiva, conformada, por vezes conivente com problemas sociais graves como a violência e corrupção. Em outra instância, grande parte dos religiosos aponta facilmente o dedo para os "diferentes", mas tenta encobrir ou ignorar casos de abuso sexual de menores por membros da própria classe. Amor é condenável, mas abuso é perdoável, permissível! Será que o "amor diferente" é mesmo tão ameaçador assim para a integridade moral de uma sociedade, família ou indivíduo????

A verdade é que à todo mundo, independente da orientação que tenha, deveria ser assegurado o direito a pertencer, ser feliz, dono das próprias escolhas e respeitado nelas. O pressuposto do amor é uma troca de bem querer, desejo de pertencer, doar, crescer e aprender junto. Sementes que promovem a construção, a união, não seus inversos.

É tão fundamental celebrar e espargir o amor, seja de que natureza for, porque este mundo está contaminado demais por intolerância, discriminação, falta de compaixão, está desidratado e desnutrido de uma comida imprescindível chamada: AFETO!

mor nunca é demais! Não importa a cor, gênero, idade, status social, formação educacional, estilo do amor de quem ama. O que importa é sim tentar-se combater a falta dele, porque é a sua escassez que arruina um indivíduo, uma família, uma comunidade, uma sociedade. Quando alguém se sente amado e feliz, a realidade muda de cor, de sabor, fica mais leve, a pessoa se sente com mais potencial para promover mudanças sadias, construtivas, promissoras. A gente precisa reinventar o mundo com chuvas torrenciais de afeto, positivismo, elogios, tolerância, respeito e gratidão! 

Não existe aquele ditado que diz: "fazer o bem sem olhar a quem?" Que tal então celebrar o amor sem julgar ninguém? 

Simone Bittencourt Shauy