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"FIM"


Feixe de luz
Reflete a imagem na cruz
 
Mãos perfuradas
Alma violentada
 
Coroa de espinhos
Cravada na dor

Corpo desnudo
De um sofredor
 
Solidão do Calvário
Como no deserto perdido
Um visionário
 
Fui condenado
Acorrentado
Dilacerado
Crucificado
 
Que martírio Senhor
Minha procissão de horror

Paguei pelos pecados
Dos impuros e atormentados

Perdoei meus algozes
Calaram-se as vozes
 
O céu se abriu
A terra num temporal
De sangue sucumbiu
 
Minhas lágrimas rolaram
Muitas almas salvaram
Impurezas levaram
 
Em corpo e alma ascendi
Meu Pai conheci

Na terra ressurreicao
No céu salvação
 
A paz encontrei
Nos tesouros que herdei
Em meu Senhor confiei
 
Meu coração renasceu das cinzas
Em que padeceu
 
Dei minha vida
Para salvar a Humanidade
Atolada em crueldade
Avessa à verdade
 
Homens perdidos
Ervas daninhas
Escudos e espadas
Vidas aniquiladas
 
Minha crucificação
Não foi da raça humana salvação
A Humanidade permanece mergulhada
Em destruição
Para minha desolação
 
Senhor,
Eles não sabem o que fazem!

A natureza humana é um potencial
Para ser vil e selvagem
 
Poucos são os que amam
São puros, generosos
Bons, humanos
 
Muitos matam, corrompem
Destroem embriagados
Por ambições desenfreadas
Cegos na brutalidade
Egoístas, covardes
Afeitos a falta de remorso e honestidade
 
Humanidade irreparável
Destino de dor inigualável
 
Minha vida perdi
Para reparar os pecados que vi

Inútil entrega
Homem para a escuridão
Se projeta
 
Senhor o que faço?
Perdido em cansaço
Já não tenho forças
Minha fé se perdeu
Já não sei
Quem sou eu!
 
(Simone)

"SER NA ÍNTEGRA"


Ser
Não ter que parecer
À conveniência alheia
 
Ser
Não ter que pegar atalhos para se dizer
O que se pensa
 
Ser
Não disfarçar sentimentos latentes
Outrora oprimidos por
Sufocantes preconceitos
 
Ser
Não o outro
Mas a própria identidade
 
Ser livre
Convicto das forças
Consciente das fraquezas
Sem sentir vergonha delas
Isto é viver a própria humanidade
 
Ser
Viver o amor
A dor
A essência
Na íntegra
 
Ser
Sem máscaras

Viver a própria verdade
É um privilégio
Para poucos
 
Estes viveram a árdua batalha
Da transposição
Das hipocrisias sociais
Mas venceram
E encontraram a felicidade
Que só quem é absolutamente livre
Tem!
 
(Simone)

"BRASIL"



Cristo no Corcovado
Braços abertos
Barracos por perto

Correria no morro
Bala perdida
Polícia à espreita
Traficantes sob suspeita
 
Drogas nas veias
Agulhas certeiras
Batedores de carteiras
Em busca de valiosas pulseiras
 
Políticos de carreira
Receita de roubalheira
 
Corrupção
Poluição
Marginalização
Manifestação
Banalização
 
Pobreza
Miséria
Descaso
Povo cansado
Do pouco caso
Elite egoísta
Individualista
 
Dinheiro roubado
Queima de arquivo
Justiça comprada
Perspectiva desenganada
 
País do Carnaval
Descoberto pelo Cabral
Dominado pelo marginal
 
Brasil dos sem-terra
Sem-teto
Indigente
Sem político decente
 
Amazônia que linda
Vendida na berlinda
 
Praia lotada
Arrastão
Gente deixada
Sem um tostão
 
Desolação
Avacalhação
Crianças cheirando cola na esquina
Sequestros relâmpagos
Suicídios
Homicídios
Falta de subsídios
Lotação nos presídios
 
Brasil varonil
Terra do Clodovil
 
Presidente é o Lula
Mas esta parte pula
Anula e evita
Senão você se complica
Se for para investigar
Vai achar um bocado de barbaridade
Roubo à mão armada contra a terceira idade
 
Mensalão
Dinheiro desviado
Documento extraviado
Sem vergonha descarado
 
Ô povo massacrado!
Ô povo enganado!
Ô povo esgotado!
Ô povo sufocado!
 
Povo que luta
Eterna labuta
Está sempre numa sinuca
 
País vendido
País desiludido
Sonho destruído
Futuro minado
Coração dilacerado
 
Brasil país maravilhoso
Povo amoroso
Tão caloroso
Um colosso
 
Mas político brasileiro
É só filho de herdeiro
Manda o povo para o bueiro
 
São só mentiras, intrigas, enriquecimento ilícito
Estas ainda são as poucas coisas que cito
Se a gente fala demais
Vai parar no distrito
E morre frito
Sem direito a um grito
 
Isto só pelo fato
De falar a verdade
Sobre a impunidade
É uma questão de dignidade
Mas quem disse que o governo
Se importa com a dignidade do povo!
Quer mesmo que o povo seja ignorante e submisso
Se for esperto demais
Eles, políticos, vão ter que dar um chá de sumisso
Dizem veladamente: "Não mexa com isto!"
"A gente rouba mas faz"
Espero que estes marginais de colarinho branco
Vão para o inferno tentar enganar Satanás
E o povo vai se sentir vingado
Sem olhar pra trás
 
Mas enquanto isto não é uma realidade alcançável
O Brasil é o eterno nadar e morrer na praia
Até que se acabe com tanta maracutaia!
 
Agora a disputa está entre
Serra e Dilma
Mais dois presidenciáveis
Tudo o que eles falarem filma
Mais baboseiras e enganações
Para não dizer estorções
 
Discurso de palanque
É sempre a mesma coisa
Mentira com disfarce de verdade
E só disparate
 
Em palanque tudo se torna possível
Isto eu acho incrível!
Político não tem mesmo vergonha na cara
Vou mandar um óleo de peroba
Para lustrar a cara destes trambiqueiros
Só subestimam a inteligência da gente
Pensam que ninguém tem um neurônio funcionante
Acham que todo brasileiro com exceção deles é ignorante
 
Maluf, Quércia, Sarney, Fleury
Serra, Magalhães
Um bando de charlatães
Quadrilha da malandragem
Grupinho da trambicagem
 
O pior de tudo
É na hora de votar!
Por pura falta de opção
A gente tem que votar nos mesmos
Bandidos de carteirinha
Isto é de amargar
A gente não tem a que se agarrar
É tudo da estirpe de
Fernandinho Beira-Mar
 
Se corre o bicho pega
Se ficar o bicho come
Ou então o negócio é mudar de sobrenome
 
Se tiver sobrenome de bacana
A gente não precisa mais viver comendo só banana
E jamais falando o que pensa e fazendo o que se quer
Entrará em cana
 
Interessante cenário
Ter todas as credênciais de presidiário
Mas viver com um gordo salário
Assumindo que todo mundo é otário
Sem precisar se preocupar com a reputação ou a falação
O "preso" da política é o mais livre de todos
Porque ele nunca vê o sol nascer quadrado
Dinheiro na Suíça não falta e está bem guardado
 
Carandirú?
Magina, isto é papo de urubu!
Cadeia, detenção?
"Fica bem quietinho aí seu sem tostão!"
Eles dizem prá gente
Isto, segundo eles,
É que é ser Presidente
Ser seguido por uma legião de gente conivente!
 
Para acabar com esta safra de salafrários
A gente precisa é inventar um bom repelente
Repelente de político Tabajara
Chega de bandidagem na Baia de Guanabara
Manda esta gente para o além
Para não ter oportunidade de extorquir mais ninguém
Baforada de repelente especialmente no Congresso
Se a gente realmente quer alcançar o sucesso
Para este povo de Brasília nunca mais
Conseguir ingresso para
Pensar em regresso!
 
Agora deixe-me parar por aqui
É a minha hora de recesso
 
Brasil ordem e progresso
É tudo o que te peço!
 
(Simone)

"NAVIO NEGREIRO"


Navio negreiro
Meses pelo mar
Revolto e traiçoeiro
Aguardando o destino derradeiro

No porão do navio
Só se ouvem gemidos
Gritos dos negros emagrecidos
Desfalecidos
Homens, mulheres, crianças
Contrabandeados de longínquas instâncias
 
Dias e dias se passam
A morte assola o porão
Ceifando vidas e semeando desolação
O porão é um mundo de horrores
Medo, humilhação, incerteza, infestação
Seres humanos e ratos
Partilhando um mesmo destino
Num buraco escuro, pestilento, sangrento
Atracados em tormento
 
No convés
Mercenários comandam o navio
Indiferentes ao inferno vivido
Nas catacumbas da embarcação
Cenário degradante e cruel
Que se construiu
Pesadelo que antes nunca se viu
 
Povo africano
Povo visto como inumano
Povo violado pela ganância do tirano
Mente de um insano
 
Na terra prometida
O navio atraca
Homens sem lei esvaziam a tripulação
Feito manada
 
Os poucos sobreviventes
Emergem dos porões
Negros presos em grilhões
Devastados pelas visões
De cadáveres amontoados
Por pestes assolados
Cravejados de varíola
Sufocados pela tuberculose
Tifo, malária, lepra
Retratos apavorantes
Das infinitas noites
Vividas em febres delirantes
 
Da África livre
Para o Brasil onde se morre mais do que se vive
Dos horrores do tombeiro
Para a sentença de escravo
Marcado pelas correias
Curtidas pelo ferreiro
Pesadelo verdadeiro
 
Agora o negro
Tem dono e senhor
Trabalho forçado
Feito de dor
Castigos no tronco
Chicotes no lombo
 
O homem guerreiro
De pele negra e nua
Enterrado no formigueiro
Sangra e sua
Observado pelo feitor
Homem que destila o terror
 
A vida na lavoura
É o avesso
Daquela sonhada e promissora
Nas terras africanas
Mundo sereno das savanas
 
Nos canaviais
A morte se faz lenta
Cada novo dia
É garantia de tirania
Interminável agonia
 
Nas noites da senzala
Se ouvem só gemidos
Dos corpos endurecidos
Corações entorpecidos
 
Os negros escravos
Em sonhos se vêem livres
De olhos abertos
Um destino
Sem diretrizes
Só cicatrizes
 
Até que o escravo
Revolto se fez
Fugido do dissabor
Do chicote e do tronco
Refugiou-se na floresta fechada
Criou o quilombo
Grito em estrondo
 
Quilombo dos Palmares
Para o céu fez altares
Símbolo de resistência
Contra sádicos algozes
Que infligiram castigos atrozes
 
O negro a liberdade conquistou
No solo do país
Onde desembarcou
E que só o aterrorizou
 
Princesa Isabel
Com tinta e pincel
Pôs fim à escravidão
Correntes foram rompidas
Autoridades destituídas
 
O negro criolo
Enfim encontrou consolo
Mas a marca do ferro
Em brasa esculpida
Na pele zulú
Manteve-se aberta e reluzente
Na vida de um inocente
Ferida profunda
Na alma defunta
 
Memória de um tempo
Perdido em tormento
Barbárie nascida da cor
Para sempre irreparável tumor
 
Navio negreiro
De um pobre guerreiro!
 
(Simone)

"BATE-PAPO NA COZINHA"


As colheres tagarelas estavam fofocando
Falando mal dos garfos
Que viviam alfinetando
As facas discretas não se metiam
A fama delas já era terrível
Complexo de guilhotina as coitadas tinham
Nem gemiam ....

Os copos no armário não aguentavam mais
Carregar pesado fardo de água, suco, leite, bebidas alcoólicas
E ter que aguentar cada hálito de dar cólicas ...

Os guardanapos sempre ficavam com o trabalho infeliz
De limpar as bocas sujas
Batom, molho de tomate, bigode impregnado de cerveja
Chocolate
Leite Parmalat ...

A chaleira era uma pilha de nervos 
Sem paciência alguma
Com água borbulhando pelas tampas ...

As bocas do fogão em brasa
Desejos ardentes
De partilhar o calor
Com as panelas
Sentadas sobre elas ...

A geladeira deprimida
Tinha fama de personalidade fria
Ainda mais sendo casada com o freezer
Que se achava o Polo Norte
Combinados eram gelo de morte!

Os armários sempre orgulhosos
Por guardar todos os tipos de segredos
Porque nunca ninguém acertava o que estava dentro deles
Se barata, rato, ou naftalina
As vezes até mesmo criolina ...

O chão sempre com a auto-estima péssima
Por ser visto sempre por baixo
Constantemente pisoteado
O coitado! ...

O microondas encrenqueiro com o forno
Que se dizia ser o mais calaroso
E cheiroso ..

O lustre observava à tudo e à todos
Com certa arrogância
De cima
E só iluminava certos detalhes
Que ele gostava ...

A pia vivia afogada
Sempre com aquela sensação de sapo atravessado na garganta
De tanta coisa que jogavam nela
E que esperavam
Seria capaz de engolir sem se queixar
Fazer descer todo o entulho redondo
Sem sofrer constipação
Que judiação! ...

As vezes o negócio só desempatava mesmo
Com Diabo Verde
Coca-Cola
Nos casos extremos soda cáustica
Que dissolvia qualquer argamassa
De pescoço de galinha
À pasta de uva passa ...

A lata de lixo
Conhecia todos os podres da cozinha
Vivia de restos
Banho não era com ela
Cheirava à polenta
Pestilenta! ...

A vassoura sempre ouvindo atrás da porta
Sabia de tudo mas disfarçava
Enquanto limpava os cantos
As más línguas diziam que ela tinha caso com o roda-pé
Que era duro feito pele de jacaré ...

A janela sempre de olho prá rua
Eternamente morta de curiosidade
Para descobrir o que se passava na vizinhança
Flertava com a janela da frente
Onde morava a Maria da Trança

A cortina tentava disfarcar
O olho gordo da janela
Mas ela mesma
Conhecia os dois lados da moeda
O mundo de dentro e de fora
Cortina e janela não se desgrudavam
Dia e noite atracadas
E sempre mal fechadas ...

A vida da cozinha
Era um mundo de muitos personagens
Todos ocupados alguns bem atrapalhados
E outros como os pratos
Viviam aguentando pressão empilhados
Todos sem exceção reclamavam da diária escravidão
Ininterrupta servidão!

(Simone)

"PALAVRAS E SILÊNCIO"


Palavras ecoam
Nas encostas da mente
 
Cortam como cacos de vidro
As entranhas da gente
 
Palavras confundem
Os sentidos
Nos tornam emudecidos
 
Engrandecem
Degradam
 
A palavra
É uma roleta-russa!
 
*
 
Silêncio é um barqueiro
Que nos guia por correntes
De intensa consciência
 
Silêncio nos leva à viagens fantásticas
De descobertas
 
O silêncio dá medo
Traz à tona
A verdade que não é para ser encarada
Na palavra
 
O silêncio faz gritar
Nossos fantasmas
 
(Simone)

"LIVROS"


Paraísos do devaneio
Barcos pesqueiros
Baús de tesouro
Máquinas do tempo
Buracos negros
Que sugam a nossa imaginação
Fontes de prazer e descoberta
Deleitam nossa alma
Eletrizam nossos sentidos
Pulsam dentro de nós
No compasso das emoções
Em desalinho
Livros nos tornam amantes
Debutantes, transgressores
Conquistadores
Aprisionam para então libertar
Desatam as amarras do impossível
Livros dão asas!

-Simone-

"CHUVA NO TELHADO"


Manhã de euforia
Grito de cores e sabores
 
Borboletas na janela
Sombras de primavera
 
Vento soprando
Cata-vento trêmulando
 
Pardaizinhos enrugados
Pela chuva no telhado
 
Abelhinhas melindrosas
Formiguinhas em polvorosa
 
Cheiro de terra molhada
Café passado e qualhada
 
Arco-íris brilhando
Céu azul cantarolando
 
Aquarela de Monet
Deslumbrante feito o quê
 
Acordes da manhã
Devaneios num divã
 
-Simone)-

"FESTA DE CRIANÇA"


 
Palhaço
Abraço
Estardalhaço
 
Brigadeiro
Beijinho
Cajuzinho
Olho de sogra
Pipoca
Alegria da patota
 
Gritos
Tropeços
Empurrões
Muitos safanões
 
Criança molhada
Criança mimada
Criança melada
Criança podada
Criança estragada
 
Nariz escorrendo
Nariz entupido
Nariz fraturado
Trabalho dobrado
 
Bagunça gigante
Vigia constante
Mães no volante
 
Muitos presentes
Crianças sem dente
Tocos de gente
 
Fraldas lotadas
Músicas da parada
Gritaria da pesada
 
Confetes
Brincadeiras de roda
Serpentinas decorando piscinas
É hora das vitaminas
 
Pega-pega
Queimada
Esconde-esconde
Corrida de bonde
 
Mães conversando
Crianças chorando
Festa rolando
Docinhos voando
 
Parabéns
Apaga a vela
Corta o bolo
Só deixa o miolo
 
Espirro
Soluço
Engasgo
Indigestão
Depois de horas de diversão
 
Crianças sapecas
Protelando sonecas
 
É hora de ir para casa
Festa encerrada
Gritaria silenciada
Mães esgotadas
Crianças realizadas!
 
(Simone)

"COTIDIANO"


Manhã de neblina
Tráfego na esquina
Café mal passado
Ônibus atrasado
Trabalho dobrado
Lanche estragado
Perigo constante
Pendências na estante
Contas à pagar
Despesas à controlar
Relacionamentos desfeitos
Remendos malfeitos
Cansaço
Vazio
Falta de perspectiva
E a gente vai perdendo a esportiva
A vida é uma luta
Eterna labuta
Dia-à-dia brutal
Esforço descomunal
A realização do sonho acontece só no carnaval!
(Simone)


"ESPELHO MEU"



A paralisia do rosto
Revelava a carga
De incontáveis desilusões

O ser tornou-se mudo
Na inércia da dor

Olhos vazios de significado
Lábios sufocados
Corpo mal amado
Esquecido por todos
Dilacerado pela tortuosidade
Das experiências vividas

Existência oca
Esperança morta

O viver se revela
Um fim intransponível
Áspero e severo
Agonia sem descanso
Desencanto...

(Simone)

"FORMIGAS"


Marchando em batalhões
Desfilando seus ferrões
Dizimando jardins
Rebolando como manequins

Rainhas da disciplina
Tropas sempre em dia
Galhardia

Carregam folhas
Cortam galhos
Alhos tornam-se bugalhos

Formigueiros majestosos
Forrados de destroços
Paraísos de bolor
Espetáculos de horror

Formiguinhas incansáveis
Devoradoras insaciáveis
Sabem o que é trabalho duro
Mesmo no mais absoluto escuro

Se uma se distrái
A tropa se desespera
Mas numa questão de segundos
Todo mundo entra nos trilhos
Pais, mães e filhos

A rainha idolatrada
Comanda a formigada
Poder soberano
Tem banquete para um ano

Soldados em alerta
Mantém a vizinhança esperta

Formigas são seres interessantes
Constantes retirantes
Grande senso de união
Mantido às custas de muita sofreguidão

Excelentes arquitetas
Constroem mansões
Até debaixo de porões

Vida de formiga não é nada fácil
Chuva prá elas é dilúvio
Ventania atiça gritaria
Sapatos o fim dos subjugados

Por outro lado
Para formiga tamanho nem sempre é documento
Calcanhar de gigante
Cravejado de picadas
Desaparece num instante
Tamanha dor
Para o invasor

Formigas são destemidas
Até entrar em cena uma baforada
De Detefon
Aí é um Deus nos acuda
Cada uma que se salve
Todas se dispersam
É hora de fazer as malas
Antes que a formigada
Morra intoxicada!

(Simone)

"A MENINA VISIONÁRIA"




A menina meiga
De olhos sonhadores
Mantinha em segredo
Extraordinário dom

Conseguia ler os pensamentos
E sentimentos humanos
Antes de serem
ou
Nunca manifestos

Dentro de sua mãe
Um coração cheio de amor
E uma mente
Repleta de idéias floridas

No pai
Morava a esperança na vida
E a mente
Mergulhada em sonhos

Nos amigos da escola
Espíritos de aventura
Ternura
Amizades sem preço

Do lado de fora da janela
Ela conseguia ver o rosto, o coração
E sentimentos do mundo

Neste momento
A menina tinha
Os olhos marejados de lágrimas
O retrato do mundo
Era devastador
Guerras, ódio
Ganância, destruição
Tragédias, dor
Medos, angústias

Em esparços lugares
Um pouco de alegria
Esperança e generosidade

Mas o mundo como um todo
Estava doente
Agonizando
Mergulhado em desvastação de todas as naturezas

Os seres humanos empobreceram
Não só economicamente
Mas afetiva e intelectualmente também
 
A menina tomou prá si
As dores do mundo
Adoeceu seriamente
Tentando achar a cura
Para os males humanos

Em cada parte do mundo
Ela plantou uma semente de amor
E compensação
Cada semente de amor nova
Anulava três de maldade

Até que chegou um tempo
Quando o amor tornou-se
Invencível
E a menina sobreviveu

Agora
Cada vez que abria a janela
Via a Terra
Enfeitada de sorrisos
Recheada de tolerância
Coberta por um arco-íris
Capaz de emanar luz
À todas as vidas

Nenhum ser humano sequer
Ficou à margem da sociedade
Muito menos do amor
De uma vida decente
Todos os sonhos
Tornaram-se possíveis
 
A menina respirou aliviada
E escreveu uma estória
Sobre a importância
De espargir o amor
Para que nunca mais ninguém
Fosse tentado
A transformar o mundo
Em sombras de novo

(Simone)


"O PÂNTANO"


Nas profundezas de uma tortuosa floresta escondia-se o pântano. Suas águas inertes e turvas ocultavam seres esquecidos na cegueira da escuridão. Troncos contorcidos, fossilizados, repousam nas beiradas barrentas e traiçoeiras como areia movediça. Negros transeuntes alados cantavam uma melodia melancólica e desafinada. Cemitério de visões impensáveis, onde o viver não é mais do que uma sôfrega agonia. Nuvens opressoras espreitavam a paralisia deste lugar acorrentado pelas forças das trevas e das angústias eternas.

(Simone)

"VESTÍGIOS DE FÉ"



O templo sagrado, secular, fora devastado pela tempestade arrebatadora. No chão, esqueletos de delicadas flores repousam. Antigos adornos para os deuses. Não suportaram as forças das águas lançando-se na ventania homicida, indefesas. Pelos cantos, velas silenciadas. Paredes desmaiadas sobre bancos outrora povoados de ardorosos fiéis. O temporal deixou um rastro de destruição implacável. Todavia, por entre os escombros, no centro do altar, o deus adorado reina soberano, intocado pela força da natureza. Foi salvo pelo poder da própria fé. Imune viveu para todo o sempre.

(Simone)

"DELIRIUM"


 

Morada sombria
De almas sofredoras
Perdidas no devaneio
De memórias atormentadas
 
O tempo
Inexorável em sua marcha
Esqueceu-se dos seres acorrentados
Pelas vicissitudes terrenas
 
Céu e inferno misturam-se
Numa metamorfose
De intempéries e dores

Os gritos foram silenciados
As vidas dilaceradas

O sempre é finito
O viver um mito
 
(Simone)

"DEVANEIOS DA ALMA"


Aurora do dia
Reluz minha vida
Transpira saudade
Traduz a verdade
 
Fragrância de sentimentos mutantes
Dormentes no seio
Da alma carente
 
O olhar transparente
Mergulha nas belezas jazentes
Que se desdobram feito torrentes
 
Alegoria para a mente
Vertente em mistérios
Obscuros delírios
As vezes martírios
 
O dia termina em suave neblina
Alento da alma
Perdida em devaneios
Como barcos pesqueiros
 
Céu azul
Chão de estrelas
Luzes faceiras
Feitiçeiras
 
O hoje se perde
Na memória do ontem
O amanhã é sonho
Futuro alvorecer
Inexorável florescer
 
(Simone)

"O EXERCÍCIO DO SONHAR..."


Uma vez alguém me disse:
"São nossos sonhos que
Nos movem na vida
Quando você parar de sonhar
Estará no nível da morte!"
 
Tem gente que faz
Qualquer coisa
Para realizar um sonho

Tem gente que tem mêdo de sonhar
Mas sonho é sonho
Mesmo que não expresso
Vive dentro da nossa essência
 
Sonho é aquela chama
Que não se apaga
Enquanto há vida
Há sonho
Há esperança

Enquanto há esperanças
Há possibilidades
Portas podem ser abertas

Portas abertas são uma chance
Do sonho realizar-se
 
Só quando a gente morre
Que todo e qualquer sonho
Torna-se impossível

Embora tenha gente
Que sonhe morrer
 
Quando o morrer vira sonho
Ele deixa de ser impossível

Porque a morte
É o destino
De todos nós!
 
(Simone)

"TEMPOS MODERNOS"


 
Em plena crise financeira
Todo mundo se encontra num dilema:
"Gasto algum dinheiro
Ou cancelo o cinema?"
 
O governo salva rombos
De bancos fraudulentos
Montadoras
Compradores de imóveis
Enquanto o CEO
Pede perdão
Canastrão!
Cara-de-páu lustrada com óleo de peróba
É mais um ricaço
Que só aproveita e rouba
 
Milhões, bilhões, trilhões de dinheiro emprestado
Dos coitados que pagam os impostos
Que rezam todos os dias
Uma dúzia de padre nossos e vossos
 
A ganância foi longe demais
A resolução desta muvuca
Parece não chegar jamais
 
Mais uma vez
O ditado é certo:
"O mundo é do esperto!"
O honesto é sempre feito otário
Tá sempre prá trás do salafrário
 
Gente que sempre anda na linha
Vive só sonhando com o que tinha
Os que tem dinheiro
Prá bancar um monte de "adevorgado"
São os que escapam da malha fina

O resto tem que viver
Sob a luz de parafina
Porque o ordenado no fim do mês
Não paga nem a conta de luz
Tão pesada é esta cruz!
 
Os poderosos mexem
As peças do xadrez
Os pobres acabam sucumbindo aos montes
De uma vez
 
Quanta injustiça!
O negócio é ter uma mãe rica ... postiça!
 
(Simone)

"SUPERSTIÇÃO"


 
O gato estava sempre na penumbra à contemplar minuciosamente movimentos, momentos e sentimentos. Quando observado, seus olhos tornavam-se lânguidos e cínicos. Temperamento arredio, selvagem, indomável, áspero.
 
Movia-se pela casa lentamente esbarrando nas encostas das paredes. O corpo esgueirava-se por entre as frestas como que sem ossos. Defensivo, comportava-se como um fugitivo procurado à alta recompensa. Seu pelo era da mais negra tonalidade. Escuridão de um eclipse. O gato era um ser sombrio e gélido. Expressão questionadora. Parecia à tudo e à todos criticar implacavelmente e condenar sem remorços. Mensageiro de maus presságios, atraia tormentas e inspirava pesadêlos devastadores na inquietude das longas noites assombradas. Ser mudo, transtornado ... Para muitos, amaldiçoado ...

(Simone)

"QUERMESSE"



Charrete chegando
Quadrilha girando
Quentão, pipoca
Água na boca
Paçoca
 
Vinho doce
Pamonhas, cocadas
Gente pulando a fogueira
Barraquinhas abarrotadas
 
Bandeirinhas trêmulando
Céu de São João
Salpicado de bombinhas estourando

Gente bailando
Balões multicores iluminando
 
Correios elegantes trocados
Casaizinhos apaixonados

Música sertaneja
Consolando os desencantados
 
Festa varando a noite
Poeira levanta
Feito saia rodada
Na ventania
Crianças correndo em gritaria
 
Passada a quermesse
É hora de fazer uma prece
Para o novo dia
Que amanhece
 
(Simone)

"TEMPORAL"


Vento frenético
Sem tempo para ser brisa
Avança por entre as encostas
Provocando arrepios


Nuvens pesadas
Divorciam-se da alvidez
Mergulhando
Na escuridáo profunda

O céu transforma-se
Num caldeirão de intempéries
O fim da tarde angustiado
Anuncia a tormenta

Relâmpagos iluminam o horizonte
Trovoadas rugem
Em vozes guturais
Por entre as nuvens
Que se degladiam desorientadas


A chuva começa
É densa, pesada, sôfrega
Os seres terrestres
Buscam abrigo

Os amplos campos
Onde a mata é virgem
Regozijam-se embriagados
Pela chuva de prata
Que cai em desalinho
E abundância


A natureza exibe o seu poder
De estremecer e energizar
O temporal se desfaz
Apressado como veio
Deixando sua marca
Em árco-iris

Encantadora aquarela!

(Simone)

"DOCES ARREPIOS"

 


Casinha tortuosa
Fria e horrorosa
Jardim repleto de odores
Paraíso de muitos bolores

Morada façeira
De intrépidas feitiçeiras
Com seus caldeirões
Recheados de desfalescidos tubarões

Munidas de possantes vassouras
No céu desfilam
Entre nuvens turquesa
Seu fél destilam

Amigas das assombrações
Especialistas em conspirações
Quadris redondos
Feito botijões

Bocas desdentadas
Varizes escondidas sob anáguas
Risadas guturais
Em tocaia nos matagais

Mulheres diabólicas e trambiqueiras
Por onde passam são encrenqueiras
Planejam incontáveis maldições
Trancadas em porões
De centenários casarões

Suas perucas abrigam morcegos
Gatos pretos e percevejos
No teto da mansão
Sobrevoam nuvens púrpuras
Raios, trovões e criaturas
Horripilantes
Que povoam pesadêlos
Eletrizantes

Feiticeiras são fantásticas videntes
Com suas bolas de cristal mágicas
Conseguem enxergar o futuro
Só com coisas trágicas

Quando fazem uma festa
É um desfile de narizes pontiagudos
Vestidos rodados
Vampiros embriagados
Verrugas na testa
Conde Drácula fazendo seresta
Personalidades excêntricas, nada modestas

Na casa delas não falta diversão
Mas se for convidado
Tome cuidado
Com a empolgação
Pois você pode se tornar ingrediente
Para a próxima poção!

(Simone)
 

"ENTREGA DE INSTANTE"


 
Nos teus braços
Confiei minha essência
Revelei sonhos
Forças, fraquezas e dores
 
Em tuas mãos floresci
Como uma orquídea
No primeiro acorde da manhã
 
Você arrebatou o meu todo
Removeu
Meu último véu
 
Tu me possuis neste instante
No próximo já terei
Me fechado novamente
Na fortaleza das minhas defesas
 
Não posso viver assim vulnerável
Preciso do meu eu
De volta prá mim
Entenda...
As mulheres são assim...
 
(Simone)

"PARAÍSO PERDIDO"


Farol das águas calmas
Ondas cor de prata
Céu cravejado de estrelas incandescentes

Tesouros do fundo do mar
Emergem entre os corais
Navios fossilizados pelo tempo
Memórias para sempre emudecidas
 
Pousada de seres alados
Evocando estórias e gritos
Amores perdidos

Meu corpo flutua neste paraíso
Barco à deriva
Sem bússola
Sem âncoras

Livre como os que
Nunca conheceram prisões
Nem viveram desilusões

(Simone)