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"BATE-PAPO NA COZINHA"


As colheres tagarelas estavam fofocando
Falando mal dos garfos
Que viviam alfinetando
As facas discretas não se metiam
A fama delas já era terrível
Complexo de guilhotina as coitadas tinham
Nem gemiam ....

Os copos no armário não aguentavam mais
Carregar pesado fardo de água, suco, leite, bebidas alcoólicas
E ter que aguentar cada hálito de dar cólicas ...

Os guardanapos sempre ficavam com o trabalho infeliz
De limpar as bocas sujas
Batom, molho de tomate, bigode impregnado de cerveja
Chocolate
Leite Parmalat ...

A chaleira era uma pilha de nervos 
Sem paciência alguma
Com água borbulhando pelas tampas ...

As bocas do fogão em brasa
Desejos ardentes
De partilhar o calor
Com as panelas
Sentadas sobre elas ...

A geladeira deprimida
Tinha fama de personalidade fria
Ainda mais sendo casada com o freezer
Que se achava o Polo Norte
Combinados eram gelo de morte!

Os armários sempre orgulhosos
Por guardar todos os tipos de segredos
Porque nunca ninguém acertava o que estava dentro deles
Se barata, rato, ou naftalina
As vezes até mesmo criolina ...

O chão sempre com a auto-estima péssima
Por ser visto sempre por baixo
Constantemente pisoteado
O coitado! ...

O microondas encrenqueiro com o forno
Que se dizia ser o mais calaroso
E cheiroso ..

O lustre observava à tudo e à todos
Com certa arrogância
De cima
E só iluminava certos detalhes
Que ele gostava ...

A pia vivia afogada
Sempre com aquela sensação de sapo atravessado na garganta
De tanta coisa que jogavam nela
E que esperavam
Seria capaz de engolir sem se queixar
Fazer descer todo o entulho redondo
Sem sofrer constipação
Que judiação! ...

As vezes o negócio só desempatava mesmo
Com Diabo Verde
Coca-Cola
Nos casos extremos soda cáustica
Que dissolvia qualquer argamassa
De pescoço de galinha
À pasta de uva passa ...

A lata de lixo
Conhecia todos os podres da cozinha
Vivia de restos
Banho não era com ela
Cheirava à polenta
Pestilenta! ...

A vassoura sempre ouvindo atrás da porta
Sabia de tudo mas disfarçava
Enquanto limpava os cantos
As más línguas diziam que ela tinha caso com o roda-pé
Que era duro feito pele de jacaré ...

A janela sempre de olho prá rua
Eternamente morta de curiosidade
Para descobrir o que se passava na vizinhança
Flertava com a janela da frente
Onde morava a Maria da Trança

A cortina tentava disfarcar
O olho gordo da janela
Mas ela mesma
Conhecia os dois lados da moeda
O mundo de dentro e de fora
Cortina e janela não se desgrudavam
Dia e noite atracadas
E sempre mal fechadas ...

A vida da cozinha
Era um mundo de muitos personagens
Todos ocupados alguns bem atrapalhados
E outros como os pratos
Viviam aguentando pressão empilhados
Todos sem exceção reclamavam da diária escravidão
Ininterrupta servidão!

(Simone)

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