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"NAVIO NEGREIRO"


Navio negreiro
Meses pelo mar
Revolto e traiçoeiro
Aguardando o destino derradeiro

No porão do navio
Só se ouvem gemidos
Gritos dos negros emagrecidos
Desfalecidos
Homens, mulheres, crianças
Contrabandeados de longínquas instâncias
 
Dias e dias se passam
A morte assola o porão
Ceifando vidas e semeando desolação
O porão é um mundo de horrores
Medo, humilhação, incerteza, infestação
Seres humanos e ratos
Partilhando um mesmo destino
Num buraco escuro, pestilento, sangrento
Atracados em tormento
 
No convés
Mercenários comandam o navio
Indiferentes ao inferno vivido
Nas catacumbas da embarcação
Cenário degradante e cruel
Que se construiu
Pesadelo que antes nunca se viu
 
Povo africano
Povo visto como inumano
Povo violado pela ganância do tirano
Mente de um insano
 
Na terra prometida
O navio atraca
Homens sem lei esvaziam a tripulação
Feito manada
 
Os poucos sobreviventes
Emergem dos porões
Negros presos em grilhões
Devastados pelas visões
De cadáveres amontoados
Por pestes assolados
Cravejados de varíola
Sufocados pela tuberculose
Tifo, malária, lepra
Retratos apavorantes
Das infinitas noites
Vividas em febres delirantes
 
Da África livre
Para o Brasil onde se morre mais do que se vive
Dos horrores do tombeiro
Para a sentença de escravo
Marcado pelas correias
Curtidas pelo ferreiro
Pesadelo verdadeiro
 
Agora o negro
Tem dono e senhor
Trabalho forçado
Feito de dor
Castigos no tronco
Chicotes no lombo
 
O homem guerreiro
De pele negra e nua
Enterrado no formigueiro
Sangra e sua
Observado pelo feitor
Homem que destila o terror
 
A vida na lavoura
É o avesso
Daquela sonhada e promissora
Nas terras africanas
Mundo sereno das savanas
 
Nos canaviais
A morte se faz lenta
Cada novo dia
É garantia de tirania
Interminável agonia
 
Nas noites da senzala
Se ouvem só gemidos
Dos corpos endurecidos
Corações entorpecidos
 
Os negros escravos
Em sonhos se vêem livres
De olhos abertos
Um destino
Sem diretrizes
Só cicatrizes
 
Até que o escravo
Revolto se fez
Fugido do dissabor
Do chicote e do tronco
Refugiou-se na floresta fechada
Criou o quilombo
Grito em estrondo
 
Quilombo dos Palmares
Para o céu fez altares
Símbolo de resistência
Contra sádicos algozes
Que infligiram castigos atrozes
 
O negro a liberdade conquistou
No solo do país
Onde desembarcou
E que só o aterrorizou
 
Princesa Isabel
Com tinta e pincel
Pôs fim à escravidão
Correntes foram rompidas
Autoridades destituídas
 
O negro criolo
Enfim encontrou consolo
Mas a marca do ferro
Em brasa esculpida
Na pele zulú
Manteve-se aberta e reluzente
Na vida de um inocente
Ferida profunda
Na alma defunta
 
Memória de um tempo
Perdido em tormento
Barbárie nascida da cor
Para sempre irreparável tumor
 
Navio negreiro
De um pobre guerreiro!
 
(Simone)

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