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"SOLIDÃO E SOMBRAS"


 
O riso sardônico
Não foi o bastante
Para disfarçar a cólera
Em ponto de ebulição

Os gestos controlados
Olhos flamejantes
Deixaram um rastro de paralisia
Aos que cruzavam
O seu destino

O homem atormentado
Fincou os pés no recinto
Como as raízes
De um jacarandá centenário

Era um tipo patologicamente circunspecto
Mergulhado em reações
De caráter auto-destrutivo

No canto do quarto
A luz inquieta dos candelabros
Deixava uma sombra fantasmagórica na parede
Que parecia mover-se
Como articulada

A noite trouxe
Incontrolável vendaval
Alvoroçando cortinas
E a poeira pousada
Nos móveis rústicos

A força arredia da natureza
Devastou florestas
E enfureceu ainda mais aquela
Alma mergulhada em
Premunições aterradoras

O homem sucumbiu
Ao terror de seu mundo sombrio
Teve o destino dilaçerado
Como os contorcidos troncos de árvores despedaçados
Na fúria da chuva torrencial
Que fez náufrago
Este ser assombrado
Pela dor sem piedade
Que mora na ausência
De amor e sonhos...

Vagou pela escuridão eterna
De infelicidade e solidão
Pálido e decrépito
Como a múmia de um faraó
Embalsamada por milênios
Num sarcófago claustrofóbico

Escravo do esquecimento
Arrastou correntes
Clamou por paz e quietude
Mas como escravo
Seus gritos eram mudos
Para o senhor da indiferença

Ave de mal agoiro tornou-se
Nem mesmo o barqueiro da morte aproximou-se
Ficou em silêncio
Contemplando aquela alma
Sem rumo e sem nada

O fim era inalcançável
O sofrimento incomensurável
Murmúrios
Lamentos
Horríveis sentimentos

Cárcere
Agonia
Impregnada numa vida sem luz
Numa morte que não vem
Que pesa feito cruz.

 
(Simone)

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