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"LÍGIA"

 
Era noite. A casa repleta de convidados. No salão de baile ressoava uma valsa vienense. Rapazes e moças em trage a rigor desfilavam cá e lá tomados por puro deslumbramento. No canto da sala estava Lígia. Tímida, por demais discreta, no mais sepulcro silêncio. Moça fina, esguia, olhos doces como açúcar, sorriso indeciso, pele branca e lisa feito porcelana. Uma mão pousada sobre a perna, outra ocupada com o cabelo longo e em desalinho. Lígia era ruiva, sardas borrifadas pelo rosto, olhos azul turquesa. Na festa, era uma peixe fora d'água. Teve que ir contrariada. Segundo os pais, ultra-conservadores, toda moça que se prezasse era rigorosamente cumpridora dos deveres sociais. Lígia sentia-se torturada naquele salão onde os assuntos principais giravam em torno de trivialidades e intrigas. Os mundos de Lígia eram os museus, as bibliotecas, a natureza ... Estes eram a água, a comida e o ar necessários para a sobrevivência e o bem-estar geral desta moça ímpar. O salão de baile não era um campo fértil para ela absolutamente. Assim, se desconectava daquele ambiente e viajava para lugares mil na sua imaginação recheada de soberbas possibilidades.

Lígia viajou por lugares dos mais remotos, sempre curiosa para  saber sobre o universo de sonhos das outras pessoas. Sempre levava com ela um grande diário para registrar os preciosos testemunhos daqueles que encontrava. Era alguém que possuía uma habilidade única de entender os pensamentos e as emoções dos outros sem barreiras de língua, costumes ou credos. Sempre sabia traduzir uma palavra não dita, um olhar desviado, um sorriso meio torto. Conseguia enxergar o mundo interno de todos sem exceção. Uma pessoa de poucas palavras, mas de ternos abraços, apertos de mão e profunda sensibilidade. Preconceito não existia no dicionário dela. Amava todos os puros sem distinção. Era sempre o deleite das crianças e uma figura curiosa para os adultos. As crianças sabiam todos os segredos dela. E Lígia ria quando percebia que nem as nuances escapavam da visão mágica dos pequenos. Por onde passava, fazia amigos para sempre e para sempre deixava sua marca. Ninguém era mais o mesmo depois de tê-la conhecido. E ela igualmente somava o próprio eu com a sabedoria e ternura dos outros. 

Doce Lígia... quem me dera entender os seus enigmas ... Você não é deste mundo! Quem te mandou?

(Simone)  

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