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"FÉRIAS EM TAUBATÉ"

 
Férias em Taubaté
Eram deliciosas
Como saborear picolé
Da venda do seu José

Passeios de bicicleta
 Que sensação!
Para isso nunca se dizia não
Rodar pela cidade
Aproveitando a mocidade
Auge da liberdade
No caminho contemplar a natureza
Era pura beleza
Contanto que a bicicleta não se desgovernasse numa distração
E o passatempo não virasse uma coleção
De hematomas, fraturas e inflamação

Visitas ao cinema
Eram sempre um dilema
Que filme assistir?
Quando se tinha tantas opções
De entretenimento para se divertir

A sala escura
Era um mundo à parte
Na tela panorâmica
Um desfile de obras de arte

Nas cadeiras não se parava
Uma multidão de pulgas
Do tamanho de enormes verrugas
Enlouqueciam saboreando nossas canelas
Entretenimento prá elas era um exército de pernas magrelas

Não havia inseticida que desse cabo
Daqueles bichinhos insuportáveis
Legião de insaciáveis
Detefon era pouco
Para acabar com aquele sufoco

Mas passatempos assim
Não se comparavam aos livros emprestados da senhora vizinha
Dona Carochinha
A biblioteca dela era um templo de sonhos
Prateleiras recheadas
De obras consagradas

A biblioteca era o meu jardim secreto
Onde transformava o concreto
Num mundo de fantasias completo

Cada livro era uma viagem
Para a qual a imaginação era a única necessária bagagem
Cada livro emprestado
Era um baú de tesouros de fato
Cada estória linda
Monteiro Lobato
Machado de Assis
Folheados numa mesa de verniz
Virava as páginas com todo o cuidado como se fossem pétalas de flor de lis

Pernas prá cima
Livros na mão
Objetos de adoração
Toda noite a oração
Era para no dia seguinte
Buscar uma nova coleção

Bicicleta, cinema, livros
Matavam a minha fome
Naquele bairro operário
Once conhecia-se todo mundo
Pelo sobrenome

Que saudade daquele tempo bom!
Era feliz e sabia
Menina dos tempos em que boneca era feita de loça
Saboreei aquelas férias como criança lambuzada de brigadeiro de Leite Moça

Hoje a rotinha doméstica
É a minha maratona de correrias
Mas ainda trago à tona
Memórias dos livros de contos-de-fada
Lembranças povoadas de bruxas e feiticarias

Num momento roubado aqui e ali
Ainda dá tempo para reviver aqueles momentos paradisíacos

Já fui chamada de ostra
Por gostar de viver no meu mundinho
Que mesmo parecendo do tamanho de um dedo mindinho
É onde continuo a sonhar
A construir o meu viver de universos paralelos
Entre o real e o mágico

Mamãe diria:
"Não fazendo caso, não tem importância!"

Não vejo distância
Entre aquela menina de Taubaté
E a mulher que sou hoje
Na cidade ou no sítio
Passando um café

Não ando mais de bicicleta
Raramente dá para pegar uma sessão de cinema
Mas nas minhas leituras
Continuo dando asas à imaginação
Para isto não há rotina
Que consiga determinar uma limitação

O meu jardim secreto
Aquele miolinho dentro de mim
É o meu entretenimento sem fim
Cada um tem a sua própria natureza
A da Ju é assim!

(Simone)

* Poema escrito para minha amiga Ju que uma vez contou-me sobre os tempo dela de menina em Taubaté

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