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"O GARI..."




O gari pula da cama quando ainda a noite nem está pensando em passar o plantão para o dia. Coloca o uniforme cor-de-abóbora fosforescente, arma-se da vassoura piaçava e da lata de lixo.  Forra a lata com saco plástico e começa a peregrinação do dia ao longo das ruas da cidade grande. Dependendo do endereço por onde o gari vai fazer a faxina do dia, ele encontra desprezados distintos. 
Antes de mais nada, sabe que em alguns lugares os desprezados são mais abastados do que outros. Nas esquinas dos Jardins pode até encontrar uns vinténs gordos que pularam da carteira de um desavisado bacana. Este é condecorado o dia de sorte do gari. Nos playgrounds, o gari revive os momentos  da infância e pensa sobre os ciclos de vida em crescimento desenfreado. É chupeta perdida, mamadeira destruída, fraldas já fermentadas exalando odores horripilantes. O coitado do gari que não tem direito a usar máscara que seria algo sofisticado demais, supérfluo, segundo o patrão, é obrigado a lutar bravamente para desvencilhar-se, a toque de caixa, das misturas de restos com validade vencida. 
Nas grandes avenidas ele ás vezes estaciona a vassoura para observar os movimentos dos passantes. Gente de gravata, aparências requintadas, maletas nas mãos e carteiras recheadas de notas de alto padrão. De repente, o gari olha para o próprio reflexo na vitrine e fica arrasado com o que vê e se pergunta:
"- O que é que eu fiz de errado para estar aqui nesta condição, sujo, maltrapilho, esquecido do mundo, e desprezado como o lixo que coleto na frente de cada imundo boteco?"
Mas aí pensa, no momento seguinte:
"- Ainda que tenho um emprego e posso calar o grito das minhas crianças!" 
Então ele olha pra cima, faz o sinal da cruz três vezes e continua a jornada nas calçadas. Quando chega ao fim do dia, olha pra trás e vê o fruto do trabalho árduo. A cidade limpa como casa recém encerada. Estufa o peito e pensa:
"- Como o meu trabalho é importante! Ninguém me enxerga, mas todo mundo comenta a beleza que fica nas ruas que eu deixei imaculadas!"
Para ser visto, ele vai e dá uma passadinha na igreja, todos os dias, no mesmo horário, religiosamente! Entra, tira o chapéu respeitoso, olha para a imensidão da casa de Deus e pensa:
"- Pelo menos aqui, aos olhos daquele que é o dono da casa de todos, somos iguais. Não há hierarquia. Aqui sou gente! Na rua me tratam como "sub-gente" ou até indigente, mas aqui Deus, que é sensível e inteligente, me recebe com cara de contente, e me faz sentir como um se eu fosse um presente."

(Simone) 

Tudo nesta vida eh uma questao de ponto-de-vista e preferencia
O que eh um fardo para uns pode ser mais do que convidativo para outros

(Simone)

SEXTA-FEIRA 13....

Tem gente que acorda alarmado
Na sexta-feira 13
Como se um enorme desastre estivesse para ser proclamado

O povo diz que este dia traz azar
Mas isto é uma questão de ponto de vista
É superstição
Não maldição

Quando eu era pequena
E era sexta-feira 13
Andando com minha mãe na rua
Via uma escada e ela dizia:
"Não passe por debaixo"
Aí é que eu passava
Para desafiar a superstição
Para ver o que acontecia
Era assim que me atrevia

Passava um gato na minha frente
Achava gato preto lindo
Não tinha medo de macumba
Nem achava que iria no meio da noite parar numa tumba

Tem gente que leva tão à sério este negócio de superstição
Que vira até uma espécie de religião
Prá mim não passa de gente que gosta de falar sobre assombração

Mas quem tem eu respeito
Não acho que seja um defeito
É só um jeito
De acreditar em algo que pode não acabar lá muito direito

Se passar na minha frente uma bruxa voando numa vassoura
Um lobisomen na encruzilhada
Ou um extraterreste tentar me abduzir
Acho que começarei a ser superstiçiosa
Não por uma questão de azar
Mas por achar que coisas estranhas acontecem
Aí vou entender
Não é à toa que nas sextas-feiras 13 de medo todos padecem!

Acho melhor ficar atenta neste dia então
Para evitar um monte de confusão

Quanto as escadas, gatos pretos e trabalho de macumba
Eu deixo prá lá
Tenho mais do que preocupar
Se você me desculpar

Agora pare de me atazanar
Que senão dá azar!

:P

(Simone)

"SOFRIMENTO COMO REGRA"


Sofrimento como regra
É a realidade das mulheres no Afeganistão
Violência doméstica
Uma prática corriqueira
Anormal é não haver abuso

Estas mulheres são extremamente pobres
90% delas não tem estudo algum
Vivem em sociedades tribais
Onde o homem é o soberano
O que humilha e aterroriza
Vende a esposa, filha ou mãe
Como moeda de troca
Para saldar uma dívida com os donos da terra onde mora

Uma mulher que sofre estupro no Afeganistão
É considerada uma criminosa
Tornar-se-á ré e irá para a prisão
A família diz que para nada irá servir
Pois desonrou todos eles

As mulheres casadas
Sofrem igualmente a tirania imposta pelas sogras
Mulheres brutalizando outras
É assim, em meio à tanta ignorância e crueldade
Que a sociedade não muda
As regras pré-históricas que são impostas
Em "nome de Deus"
Só servem para subjulgar as mulheres
Reduzindo-as a um nada como gente

As meninas são proibidas de frequentar as escolas
As que tentam são atacadas nas ruas
Mutiladas com ácido em suas faces, mãos e pernas
Como método de intimidação

As mulheres que se tornaram viúvas
São condenadas a vida nas ruas
Se convertem a pedintes
Ou no desespero a prostituição
Para dar o que comer aos filhos nos braços e mãos

Ser mulher no Afeganistão
É nao ter voz
É viver sufocada
Debaixo da claustrofóbica burca
É viver escondida
Como se não tivesse direito a assumir a própria identidade

Quando os abusos ultrapassam todos os limites
Muitas delas buscam a morte como saída
Encendeiam seus corpos com óleo
As que morrem morrem lentamente em franca agonia
As que sobrevivem tornam-se marcadas por deformidades irreparáveis
Devido as gravíssimas queimaduras
O processo de recuperação é feito de dor e desolação
Quando recebem alta dos hospitais
São obrigadas a retornar para a prisão das casas
Para as mãos dos algozes
E o abuso se torna ainda mais horrendo
São punidas pelo "ato de rebeldia"
E vivem estigmatizadas

Uma das maiores punições às mulheres e meninas
É o que a sociedade afegã chama de "crime de honra"
Se o homem da casa ou qualquer outro da família
Determinar que um dos membros envergonhou a todos
(Obviamente em 100% dos casos uma das mulheres será o bode expiatório)
Por ter sido estuprada ou recusado a casar-se com o homem escolhido para ela
A vítima é retirada da casa
Levada ao meio da rua
O pai, irmão, tio ou primo
Sela o destino da vítima
Por uma morte por apedrejamento e pontapés 
Os passantes homens são convidados a participar
Adicionando ainda mais brutalidade ao ritual
É dito que só com a morte daquela que "desonrou" a família
Que esta se torna respeitada novamente em sociedade
A vítima é enterrada em vala comum como indigente
E a família simplesmente condena-a a imediato esquecimento
Como se jamais tivesse vindo ao mundo

O casamento infantil é outro evento "natural"
Meninas de 7 anos são obrigadas a casarem-se com homens de 70
Crianças que terão uma vida condenada à servidão e maus tratos
Uma sucessão de dores e medos
Mutilações, fome, abandono, cárcere privado e desespero

Mulheres e meninas nesta parte do mundo
Marcada pela poeira do esquecimento
Não sabem o significado do amor
Proteção, respeito
Compaixão, liberdade, felicidade
São escravas da própria realidade
Reinvenção da Idade Média
Escura, brutal, arcaica, sem diretrizes
À elas só resta um destino de cicatrizes...

(Simone)

ANO NOVO ....


É mais um ano que começa
Que seja promissor e alegre e não passe muito depressa
Quando um ano vira
É como ter de Deus
Um passaporte para novos sonhos
Deixando prá trás todos os momentos tristonhos
A gente sente como se um ano fosse separado do outro
E tudo possível de ser refeito, renovado
Quem sabe nossos projetos todos aprovados!
A gente faz promessa para ser melhor
Para fazer tudo certo da primeira vez
A cada novo dia do mês
Mas o que acho que faz mesmo diferença
É primar nas atitudes
Ter a cabeça mais aberta
Ter a humildade de entender que o mundo não somos só nós
Que não vivemos dentro de um ovo
Que há sempre algo para aprender de alguém novo
É importante refletir
O quanto estamos julgando o outro
Sendo opressor ou preconceituoso
Insensível e intempestuoso
É fácil julgar
Medir, comparar, segregar, condenar
Projetar nossas próprias fraquezas nas pessoas
Como se fôssemos o retrato da perfeição
E os outros da degradação

O quanto estamos sendo egoístas?
Pessimistas?
Arrogantes?
Intransigentes?
Incompetentes?
Estamos sabendo calar mais do que falar?
E ouvir mais do que esnobar?
O quanto estamos engolindo sapos?
E permitindo viver com os nervos em farrapos?
Como está nossa auto-confiança?
E a que pé andam nossas economias na poupança?
Estamos sabendo reivindicar nossos direitos?
Ou já desculpamos a corrupção desenfreada dos eleitos?
Já nos acomodamos na bengala do "não há como mudar"
O negócio é acostumar?
O quanto a gente se deixa ser subjugado
Maltratado, massacrado?
Ficando sempre com algo na garganta atravessado?
A gente já se deixou viver no automático
Ou tem planos de tornar nossa vida algo mais prático?
Temos consciência dos nossos talentos?
De que nos temos talentos?
E de que eles podem ser nossos alentos?

Quando nos olhamos no espelho
A quantas anda nossa auto-estima
Por acaso está mais baixa do que o sub-solo da Capela Sistina?

Estamos cuidando do humor
Ou nos deixamos afogar num estado de estupor?

Prestamos atenção à nossa saúde
Ou deixaremos para fazer alguma coisa no estágio do Deus nos acude?

Que tal aprender algo novo a cada dia?
Ou o esforço para isto é tão grande que será preciso pedir ajuda à Virgem Maria?

E a nossa quota de generosidade?
Nem pensando nisto? Acha que é coisa só para ser feita na terceira idade?

Estamos no time dos que trabalham para o dinheiro
Ou o dinheiro trabalha por nós?
Prá isto o esforço terá que ser atroz?

O quanto cultivamos pensamentos positivos?
Prá isto não são precisos pré-requisitos!

Sabemos sorrir
Ou estamos tão depressivos que perdemos a noção do que é se divertir?

Quão invisíveis estamos tornando as pessoas quando saímos na rua?
A caixa do super-mercado, por exemplo
A gente diz um bom dia, boa tarde, muito obrigada
Ou a relação não passa de uma coisa de pessoa embriagada
Que faz tudo sem noção, sem esforço na ação?

Vamos sair da inércia do "ninguém se importa, por que eu deveria?"
Pensar assim é uma desculpa bem esfarrapada beirando à grosseria!
Tratar bem as pessoas não é só uma questão de cidadania
É de humanidade
Só assim que é possível exterminar a maldade
Neste mundo contaminado por tanta rivalidade e mediocridade

Temos que estar conscientes de que a maior fome que se tem
É de amor de verdade
Esta é a comida básica para a alma, mente e coração
É o que todo mundo a noite pede quando faz uma oração!

Não sejamos superficiais nas nossas ações ou palavras
Vamos valorizar as pessoas pelo que elas são
No que elas sabem fazer
No quanto com elas podemos aprender
Crescer
E o amor delas também merecer!

Que tal sorrir mais
Amar nunca é demais
Entender com devoção
Aprender a ser mais flexível para num problema alcançar uma resolução
Procurar ter sempre a melhor intenção
Prestar atenção no departamento da emoção
Primar pela boa educação
Ser sincero de coração
Aprender a economizar na carteira sempre um tostão
Cultivar senso de humor em liquidação
Tratar as pessoas como gente
Pra a violência não abrir nenhum precedente
Todo mundo gosta de ser bem tratado
Não importa se embriagado ou desmiolado
Ninguém é melhor do que ninguém
As pessoas não devem ser julgadas por uma questão de vintém
Ter preconceito é um enorme defeito
O negócio mesmo é ser amigo do peito!

A Humanidade precisa de bondade
Para cortar pela raiz a erva daninha da brutalidade
Vamos tornar deste ano
Um precedente para o que eu chamaria de criatividade humana
Construir ideais para tornar o dia-à-dia de todos
Uma muito melhor realidade
Deixemos de lado o piloto automático da individualidade
Vamor contribuir para fazer deste mundo uma grande comunidade
Com o objetivo de salvar de cada pessoa
A capacidade e oportunidade de expressar a própria afetividade!

Que Deus abençõe nosso 2012!

(Simone)