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OUTONO...


Manhã de outono
Brisa fria
Perco-me por entre a neblina
Viajo para outras instâncias
 
As folhas das árvores sucumbem
No seu envelhecer necessário
Pousam nos caminhos
Amontoadas em desalinho
 
Melancólicos são estes dias
Nos quais o silêncio se faz ouvir
A natureza se contorce
Em suas metamorfoses
 
A lagoa de águas turvas descansa
Num sono sereno
Nem mesmo o toque as libélulas na sua superfície
A perturda
 
O outono é um desfile de cores
Um enovelar de transformações
Um sonho de delicadas pinturas
 
Deixo-me levar por ele
É sedutor
Me acalma os sentidos
Me faz leve
Me liberta dos cárceres internos
Faz com que eu me encontre
Com partes de mim
Que havia esquecido
O outono remove a poeira
Da minha essência
 
-Simone-


BIOGRAFIA DE DONA CASA...



A vida da casa era abrigar uma família
Dar a proteção de um teto
A segurança de um assoalho
A intimidade de quatro paredes

Era feliz
Com os ruídos das crianças dançando pelos aposentos
O perfume na cozinha de uma comida feita com amor
As conversas entusiasmadas das reuniões familiares
Os dias de festa, quando ela era toda decorada
Em cores vibrantes e delicados ornamentos

A casa gostava de olhar as crianças brincando no quintal
Nos fins de tarde
Quando os raios de pôr-do-sol
Faziam um jogo de luzes e sombras na sua fachada

As grandes árvores eram as cofidentes da casa
Viviam juntas por anos à fio
E entendiam-se bem em sentimentos e pensamentos

A casa achava engraçado o movimento das roupas coloridas nos varais
Deslumbrava-se com o encanto das flores
O gramado todo verde era tão sedutor
As formigas em tropa subindo pelas encostas
De suas paredes lhes davam cócegas

A casa era testemunha de muitos eventos
Gerações de pessoas nasceram, cresceram e morreram nela
Teve que suportar mudanças drásticas
Dos humores da Terra
A Natureza sempre em transição, transformação

A casa era grata pelas tantas experiências vividas
Tempos árduos
Tempos fartos
Tudo parte de uma longa história de vida
Cenário de alegrias e vicissitudes...

-Simone-



A INFÂNCIA É FEITA DE FELICIDADES SIMPLES...

 
 
Brincadeiras de fim de tarde
Depois da escola
Entretenimento com bonecas e bola
 
Andar de bicicleta pelas ruas arborizadas
Alegria da garotada
Diversão animada
 
Criar uma feira no quintal
Montar bancadas com frutinhas e legumes
Usando folhas de goiabeira como dinheiro
Gargalhadas garantidas para o dia inteiro
 
Com as bonecas
Fazer desfile de moda
 Ajudar a mãe a fazer uma torta
Comer doce de compota
 
Nas férias viajar para a praia
Brincar com os primos e primas
Dar risadas com as tias
Correr pelas ruas em gritaria
Pega-pega em anarquia
Liquidação de liberdade
Vai prá sempre deixar saudade
Da infância à terceira idade
 
Ver as ninhadas de gatinhos e cachorrinhos nascerem
Ficar embalando-os no colo até crescerem
Escondê-los debaixo das cobertas
Dar um nome à cada um
E deixar esbaldarem-se no leite
Após uma noite em jejum
 
Pudim de sobremesa
Não há nada mais saboroso
Amor de mãe tem o dom 
De deixar tudo gostoso!
 
Subir nas árvores
Observar as formigas trabalhando
O senso de organização delas gera imenso espanto
As borboletas dançando entre as flores
Quanto encanto!
 
A magia da infância
É feita de felicidades simples
Não é preciso nada sofisticado
Para ter significado
Todos os dias, se a gente quiser, podem ter cara de feriado
 
A infância é um tempo precioso
Quem tem uma infância feliz
Vai ter para sempre uma lembrança
Do que é mais importante na vida
Na própria raiz!
 
-Simone-
  


CERCAS...


 
Cercas da escravidão
Angústia
Mêdo
Insegurança
Sentimentos contidos
Pensamentos distorcidos
Opressão
Solidão
Esquecimento
Anonimato
Preconceito
Violência
Doença
Intolerância
 
Cercas visíveis ou invisíves
Não importa do que são feitas
Mas sim as razões pelas quais foram criadas
 
Cercas nos paralizam
Não há avanço
 Conquista
Alegria
Paz
Cerca é segregação
Dor
Dominação
Rótulo
 
Cercas cerceiam quem nós somos
E quem poderíamos ser se elas não estivessem lá
 
Cerca é prisão
Uma vida de desilusão
Invisibilidade
Exclusão
 
-Simone-


ENCANTOS DA NOITE...


 
Era noite
Todos da casa dormiam
A lua alegre
Brilhava por todos os lados
Romântica incurável
Paquerava a Terra de longe
Fazia-se bonita
Ás vezes estava magra, outras vezes gordinha
Outras ainda em curva compridinha...
 
Grilos cantavam em bloco
Como tenores noturnos
Vaga-lumes exibiam-se orgulhosos
Com suas luzinhas verdes apontando em todas as direções
Libélulas contemplavam suas asinhas perfeitas
No reflexo das lagoa
A formiga tão sem tempo para apreciar o que fosse
Senão o trabalho interminável de manter o formigueiro
Bem estocado em comida
A rainha bem servida
Assim se resumia sua árdua vida...
 
As flores da noite
Apesar de esperar sempre ansiosamente as abelhas
Conseguiam mesmo era só um emaranhado de teias
As aranhas adoram a calmaria da escuridão
Para construir suas obras primas de engenharia e arquitetura
Exímias construtoras e costureiras
Fazem da própria vida um eterno remendo
Mas antes uma teia rasgada com um inseto fisgado
Do que uma imaculada sem nenhum regalo
Especialmente porque gostam de saborear suas presas até o talo...
 
A velha cadeira de balanço repousando na varanda
Estava nos últimos suspiros de vida
A qualquer momento poderia se desfazer em pedaços
Dormir tantas noites ao relento
Era um processo de morrer doloroso e lento...
 
O charme da noite
É irresistível
Tudo parece puro mistério e fascínio
Dá para a gente perder-se nos braços dela
Para nunca mais se achar
Na penumbra se deixar ninar...
 
-Simone-
 


RESPONSABILIDADES DE UMA VIDA EM MOVIMENTO...


Cansada
Ela deitou-se
E passou a pensar sobre a vida
 
Os tempos de infância
Quando as maiores responsabilidades
Eram vestir-se sozinha, arrumar a cama, comer vegetais e tomar banho
O resto eram brincar, respeitar os pais, abraçar a mãe
 
Quando a vida escolar começou
As responsabilidades aumentaram um bocado
Era preciso cumprir horários
Fazer as lições de casa
Estudar para as provas
Passar de ano
 
Na adolescência
As responsabilidades eram continuar indo bem na escola
Não tomar muita Coca-Cola
Os namoros tinham que seguir regras rígidas de conduta
Chegar em casa na hora marcada
Não tomar nenhuma bebida nas festas
Não deixar o namorado "avançar o sinal" nos afetos
Prezar a virgindade
 
Trabalhar para pagar os estudos
Aprender a ser mais independente
Resolver os problemas por conta própria
Arcar com as consequências dos próprios atos
Falar sempre a verdade
 
Na faculdade
Entender as preocupações dos pais com o futuro dos filhos
Ouvir os professores, aprender com as experiências deles
Estudar com a consciência de que se está construindo um caminho profissional
Aprender a lidar com cobranças
Expectativas alheias
Já não se é mais adolescente
Agora, mais do que ser cuidada pelos pais
É cuidar deles ... estão envelhecendo
Aprender a ter um propósito na vida
 
Na vida profissional
A responsabilidade de fazer bem as coisas
Aprender, criar, ver além, crescer
Ajustar-se na relação com as outras pessoas
Saber ouvir, entender, aceitar críticas e manejar as pressões
Fazer uso do dinheiro de modo sensato e cuidadoso
Agora é o andar com as próprias pernas
 
Deixar a casa dos pais
Casar
Construir uma vida nova
Com uma pessoa diferente
Criada de uma outra forma, numa outra família
Que pensa diferente, tem gostos diferentes
Se comporta diferente, sonha diferente
Pensa diferente, encara as coisas sob outros ângulos
Aqui a responsabilidade é aprender a conviver com as diversidades
Ouvir com a intenção sempre de entender
Respeitar opiniões divergentes
Sentimentos em outras esferas
É o se abrir em corpo, emoções, pensamentos
Remover paredes, escudos
O não dito vira conflito
É preservar mais do que nunca o respeito mútuo
É criar um senso de companheirismo e confiança
 
Perder os pais
Que grande vazio
É ficar órfão para o mundo
Dá umas saudades do colo da mãe!...
Agora é ser dono por completo do próprio destino
É tomar decisões sozinho
É ser feliz e chorar sem poder partilhar com eles
Natais e Anos Novos sem aquela reunião familiar na casa deles
Na casa onde se cresceu e se partilhou
Tantas e tantas histórias
 
Tornar-se mãe
Que enorme responsabilidade
Cuidar de uma vida que saiu de dentro
Que é totalmente dependente de cuidados
Que não fala, não anda
É preciso advinhar os desconfortos
Alimentar na medida certa
Dar amor constantemente
Acordar noites e noites
Dar os remédios
Lembrar que a criança pode estar dormindo descoberta numa noite fria
Levantar no meio da noite para cobrir
Ver se está bem
Sentar ao lado quando tem um pesadêlo
Ensinar valores
Educar
Mostrar o que é amar os outros e a si mesmo
 
A responsabilidade de ter um filho
É algo gigantesco
É uma vida que se molda
Cada etapa tem um desafio diferente
A preocupação pelo futuro de uma criança é indescritível
Sob a perspectiva de ser pai e mãe
O maior medo é envelhecer ou morrer
E não estar lá para cuidar do filho enquanto ele ainda é dependente
É proteger a integridade da nossa vida e da dele
É ensiná-lo a defender-se e ter as próprias convicções
É mostrar o certo e o errado
É ensinar e aprender junto
É confiar, encorajar, admirar
Aplaudir as vitórias
 Estar ao lado nas frustrações
Ser pai e mãe é envelhecer com responsabilidade
 
A vida
É um eterno caminhar
Nas suas tantas e tantas etapas
Vicissitudes e conquistas
Construir, aprender
Errar, consertar o erro
Ensinar, entender
Aceitar, fazer escolhas
Construir equilíbrio
Cultivar bons relacionamentos
Celebrar a vida nos seus altos e baixos
Ser grato, ser bom, ser íntegro
Sincero, honesto, generoso, respeitoso
Valorizar o que se tem
Lutar pela própria subsistência
Ter paciência, perseverança
Garra, fé
Ter um pé nos sonhos e outro no chão
Não se deixar corromper
Enxergar além da superfície das coisas e das pessoas
Proteger a própria dignidade  e a do outro também
Lutar contra os preconceitos e a ignorância
Cuidar-se, deixar-se cuidar e cuidar dos outros
Estender a mão sem olhar a quem
Não julgar
Não exigir perfeição de ninguém
Fazer muito mais elogios e se for para criticar que seja com amor
Andar para frente
E se tiver medo, vai com medo mesmo!
 
-Simone-

TEMPO DE ESCOLA....

 
 
Ah! Os tempos de escola...
 
No início do ano escolar
 Abrir um caderno com páginas em branco
Era sempre uma fascinação
Um estímulo para instigar a imaginação...
 
Cartilha Caminho Suave
Foi com a qual me alfabetizei
Em cada página versinhos curiosos
De sentidos duvidosos
Era um exercitar dia após dia
 De uma sofrível caligrafia... 
 
Tínhamos que usar uniforme
Blusa branca, saia azul
Meia branca e sapato preto
Mais tarde foi o tempo do guarda-pó
O qual tinha que estar sempre branquinho
Graças à muito sabão em pó...
 
Saudades das merendas deliciosas
Primorosamente preparadas pelas habilidosas cozinheiras
Só gostava do arroz doce polvilhado de canela
Sagú feito de groselha Milani
Leite Itambé nas canequinhas
Que combinava tão bem com bolachas de rosquinhas...
 
As aulas de Educação Física
Eram sempre muito esperadas
Jogar vôlei com a garotada
Era a diversão que mais deixava a quadra lotada
Como era gostoso o partilhar
Defender, sacar
Levantar, bloquear
As vitórias festejar...
 
Na sala de aula
Os desafios eram muitos a superar
História e Geografia memorizar
Ciências pesquisar
Português decodificar
Matemática de arrepiar
Equações descomplicar
Geometria era de amargar!...
 
Cada professora vinha com uma personalidade
 Um estilo de ensinar
 Algumas eram bravas
Outras nos deixavam
Morrendo de tédio às favas
Algumas muito especiais
Carismáticas fenomenais...
 
Professores que ensinavam com paixão
Tinham dos seus alunos pura devoção
Aulas deliciosas
 Cheias de descobertas curiosas
A gente não via o tempo passar
Todo mundo torcia para a aula não acabar...
 
Dias de prova eram tensos
As lacunas na memória da gente
Deixavam as vezes espaços imensos
Tanta coisa para lembrar
Tão pouco tempo para as questões solucionar...
 
Quando era dia de dentista e vacinação
Se todos os alunos pudessem sairiam correndo em batalhão
Como eu tinha pavor daquelas agulhas
Que reluziam diante dos nossos assustados olhos feito fagulhas
Tudo o que eu queria era minha mãe por perto
Para não ter que enfrentar os meus mêdos assim à descoberto
Mas como ela não estava lá
Tinha que segurar meu choro à seco
Enfrentar
Passar a provação
Mas depois era tão bom
Encontrá-la no portão de saída no fim da aula
Com um abraço me esperando
Podia finalmente dizer que fui forte
Apesar do mêdo que eu tinha que era de morte
Queria deixá-la orgulhosa de mim
Do início da minha vida até o fim
Porque eu sabia que ela gostava muito de mim
Afinal, amor de mãe é mais valioso do que marfim
E ainda mais gostoso do que pudim...
 
O sinal anunciava a hora do recreio
Era gente correndo que não acabava mais
Os meninos iam jogar futebol
As meninas se juntavam em rodinhas
Para bater papo e contar estorinhas
 
As amizades com colegas e professoras na escola
Eram muito marcantes
Nós tínhamos um mundo só nosso além de casa
Aprendíamos coisas novas nas somas dos dias
Havia momentos
De grandes apertos
Mas também de muitos alentos...
 
A vida na escola
Era feita de coisas incríveis
Prá mim muitas delas
Tornaram-se inesquecíveis!
 
-Simone-
 


CANÇÃO DO MAR...



Na minha canção do mar
As manhãs são todas tão lindas
Que olhos nem pensarão em pestanejar
 
As gaivotas chegam todas em revoada
Buscando abrigo nas encostas
Numa dança de idas e voltas
 
A areia fina
Ainda adormecida na humidade da noite
Descansa imaculadamente lisa
Não se deixa nem perturbar pelo sopro de uma brisa
 
As ondas penteiam o mar
É uma vastidão linda de se contemplar
 
Céu, terra e mar
Três companheiros ao relento
Cada qual com seu talento
 
O som das canções das águas batendo nos corais
São como uma orquestra de vozes melodiosas
Lindas como os cristais

O oceano tem uma coisa mágica
É uma visão penetrante
Hipnotizante
O movimento das águas
Leva nossa imaginação a velejar
No verde e no azul de suas cores
Na profundidade de seus bastidores

Os fins da tarde são um deslumbre
O pôr-do-sol anuncia uma calmaria para o dia
As cores no horizonte são um degradê de belezas
Metamorfose da natureza
Desfile de delicadezas

-Simone-

 


DONA PERPÉTUA...

 
Dona Perpétua
Era uma velhinha tão velha
Que no tempo em que nasceu
Calendários nem eram ainda uma invenção
Ela era tão inacreditável quanto uma aparição
 
Gostava de rir
Os dentes já estavam vencidos
Não havia um sequer para fazer reconhecimento da arcada dentária
Se por acaso batesse as botas numa encruzilhada
O negócio dela era viver de gargalhada
 
A pele era toda franzida feito uva passa
O perfume parecia ter sido retirado da tumba de um faraó
A comida favorita dela era farofa com jiló
Vivia se queixando de brotoejas no fiofó
Suas sobrançelhas eram grossas como cipó
 
Gostava de se vestir na moda
Mas façamos uma retificação
Sim, ela andava na moda
Na moda dos chiques da Idade Média!
Vestidinhos de sêda
Chapéuzinhos estilosos
Sapatinhos de fivela pontiagudos
Anáguas de moribundos
Peruquinha de Maria Antonieta
Cravejada de traças e marimbondos
Baratas e pernilongos
 
Dona Perpétua
Velhinha muito sábia
Era balcão de informações
Conselheira emocional e espiritual
Tinha uma receita de poção para todos os tipos de aflições
De desilusões até escorregões
Nunca deixava ninguém sem uma resposta
Inventava até miraculosas receitas de bolo
Com raspas de tijolo
 E rimas de consolo
 
Estava sempre rodeada de crianças
Já que era uma talentosa contadora de histórias
A criançada ficava de queixo caído
Com os detalhes assombrosos
Elas achavam que Dona Perpétua
Era uma bruxa disfarçada
Quando diziam isto
Dava uma gargalhada
E pedia se elas mantivessem o segredo
Contaria a verdade
Era sim uma bruxa na milésima idade
Andava de vassoura
E tomava sopa de tesoura
 
As crianças lhe pediam favores
Encher o bolso delas com todos os tipos de doces
Fazê-las voar janela afora nas noites de lua cheia
Quando as aranhas estavam prestes a construir uma nova teia
Tornar coloridas as suas veias
E causar alergia em quem as chamasse de feias
 
Dona Perpétua
Era uma velhinha e tanto
Tudo o que ela fazia causava espanto
Mas a verdade é que era adorada unânimamente
Uma senhora que deixava todo mundo feliz
Falava que amar era o mais importante
Depois de gargalhar é claro
Para coisas boas tinha um excelente faro
Morava dos cafundós de Santo Amaro
Achava que todo mundo sempre precisava de um reparo
Porque ter uma vida perfeita era
O que havia de mais raro.
 
-Simone-

BATE-PAPO ENTRE BONECAS...


 
As bonecas sentaram-se todas juntas para uma conferência
Estavam angustiadas para falar sobre a vida que estavam levando
As donas, ao que parecia, andavam deveras relapsas

Uma das bonecas queixou-se
Que a menina que a possuía
Tinha a mania de passar uma escova com hastes de metal
Nos cabelos dela com tamanha força
Que suas madeixas estavam sendo puxadas
Ao ponto da cálvicie absoluta!

A outra boneca disse que havia perdido um dos seus olhos de vidro azuis
A dona os ficava cutucando com o dedo indicador
Como que querendo xeretar se a boneca
Escondia algum segredo por detrás deles
A boneca precisava com urgência marcar uma consulta
No Hospital de Bonecas Avariadas

A outra boneca
Com vestido de Maria Antonieta
Desabafou que sua dona
A arrastava pelo chão empoeirado
E que ela estava com tosse constante
E o vestido de seda esfarrapado

Uma boneca rechonchuda contou que havia perdido sua casa
A dona resolveu morar da casa dela
Só que o espaço para as duas era tão mínimo
Que as paredes da casa voaram pelos ares
A casa foi para o saco de lixo
E a boneca andava dormindo ao relento
E ainda com a meia calça com um rombo enorme no meio

Quantas mazelas na vida destas pobres bonecas...
Elas queriam ir para o colo de outras meninas
Meninas cuidadosas, carinhosas, caprichosas
Não aquelas destrambelhadas criaturas
Que eram suas donas atuais
Queriam protestar e fazer a revolução das bonecas

Seguem-se as reivindicações delas:

. casa de boneca nova e mobiliada
. vestidos de seda lavados, passados e engomados
. cabelos tratados com cuidado, creme e fita
. passeios no jardim nos fins da tarde
. chá inglês com bonecas estrangeiras uma vez por semana
. abertura de um sindicato das bonecas
. delegacia das bonecas para denunciar maus-tratos
. atendimento sem fila no Hospital das Bonecas
. proteção anti-baba de cachorro e gato
. férias e retiro 6 semanas por ano

Ao final da reunião
E munidas da ata
As bonecas foram cada qual para a sua dona
Bateram o pé
Umas com sapato de fivela e outras sem
E fizeram as donas
Prometerem que seriam boas
Senão elas cometeriam suicídio coletivo
Na primeira fogueira de São João que achassem pela frente
Preferiam morrer derretidas
Do que aguentar aquelas meninas insuportáveis
Temperamentais e desleixadas

Depois da revolução das bonecas
As donas nunca mais foram as mesmas
Passaram a tratar as bonecas com primor
E ilimitado amor

Assim, as bonecas viveram felizes
Agora sim tinham um futuro garantido
Até as donas ficarem velhinhas
E com as pernas cheias de varizes!

-Simone-



DIA DE VENTANIA...


A tempestade avisou que estava chegando
Pedindo para uma grande ventania dar o recado
Num sopro foi tudo carregando
 
Mães e filhos saiam em tropas das casas
Para resgatar as roupas nos varais
Até mesmo rolaram pelo chão os castiçais
 
Galhos de árvores voavam em desvairada correria
Miava alto chamando a ninhada a gataria
 
Os gramados pareciam cabelos em desalinho
Passarinhos bravamente tentavam salvar cada qual o seu ninho
 
As saias das mulheres se enchiam feito balões
Os homens que para elas olhavam torto
Quase levavam uns bofetões
 
A força do vento era tanta
Que até mesmo os velhinhos
Perderam suas perucas
Muito frio sentiram por detrás das desnudas nucas

Guarda-chuvas viraram do avesso
Sacolas dando piruetas no ar
Era um abre e fecha alucianado das portas  de todo e qualquer bar
Noivas perdiam suas grinaldas no altar

Os insetos mudaram à contra-gosto os seus endereços
As pequenas recém-nascidas ararinhas os seus berços
Os besouros pelas calçacas eram carregados
Em tropeços

Neste dia de louca ventania
Completa foi a anarquia
Assim que a tempestade passou
A cidade virou um mar de quinquilharia.
E agora para limpar tudo isto
Como vai ser?!
Oh, minha Virgem Maria!

-Simone-
 


A FLÔR NO CAMINHO E A CALÇADA...



Havia uma flôr no caminho
Que vivia ao longo de uma calçada esquecida e empoeirada
A solidão sentida era a de ser única
Para crescer esgueirou-se por entre uma rachadura
Tinha o propósito de ser bonita e valente
 
A calçada gostou da decoração da flôr
Sentiu-se valorizada pela primeira vez na própria vida
Estava cansada de ser pisoteada todos os dias
Agora pelo menos não mais passantes
Só a flor e a poeira
 
A flôr e a calçada tornaram-se amigas
Companheiras inseparáveis
Tinham longas conversas
Nas tardes quentes de verão
Na aspereza das noites de inverno
Uma consolava a outra
A dureza da calçada protegia a flôr
E a flôr fazia serenatas para distrair a calçada que tremia de frio
 
No dia em que a flôr deu o seu derradeiro suspiro de vida
A calçada sentiu um vazio profundo
Sua melhor amiga havia partido
Mas, de presente, manteve o próprio perfume eterno
Para a calçada continuar sentindo a presença dela
E nunca achar que havia sido esquecida
Pela flôr que ela havia abrigado numa de suas rachaduras
Tão confortavelmente...
 
-Simone-