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DONA PERPÉTUA...

 
Dona Perpétua
Era uma velhinha tão velha
Que no tempo em que nasceu
Calendários nem eram ainda uma invenção
Ela era tão inacreditável quanto uma aparição
 
Gostava de rir
Os dentes já estavam vencidos
Não havia um sequer para fazer reconhecimento da arcada dentária
Se por acaso batesse as botas numa encruzilhada
O negócio dela era viver de gargalhada
 
A pele era toda franzida feito uva passa
O perfume parecia ter sido retirado da tumba de um faraó
A comida favorita dela era farofa com jiló
Vivia se queixando de brotoejas no fiofó
Suas sobrançelhas eram grossas como cipó
 
Gostava de se vestir na moda
Mas façamos uma retificação
Sim, ela andava na moda
Na moda dos chiques da Idade Média!
Vestidinhos de sêda
Chapéuzinhos estilosos
Sapatinhos de fivela pontiagudos
Anáguas de moribundos
Peruquinha de Maria Antonieta
Cravejada de traças e marimbondos
Baratas e pernilongos
 
Dona Perpétua
Velhinha muito sábia
Era balcão de informações
Conselheira emocional e espiritual
Tinha uma receita de poção para todos os tipos de aflições
De desilusões até escorregões
Nunca deixava ninguém sem uma resposta
Inventava até miraculosas receitas de bolo
Com raspas de tijolo
 E rimas de consolo
 
Estava sempre rodeada de crianças
Já que era uma talentosa contadora de histórias
A criançada ficava de queixo caído
Com os detalhes assombrosos
Elas achavam que Dona Perpétua
Era uma bruxa disfarçada
Quando diziam isto
Dava uma gargalhada
E pedia se elas mantivessem o segredo
Contaria a verdade
Era sim uma bruxa na milésima idade
Andava de vassoura
E tomava sopa de tesoura
 
As crianças lhe pediam favores
Encher o bolso delas com todos os tipos de doces
Fazê-las voar janela afora nas noites de lua cheia
Quando as aranhas estavam prestes a construir uma nova teia
Tornar coloridas as suas veias
E causar alergia em quem as chamasse de feias
 
Dona Perpétua
Era uma velhinha e tanto
Tudo o que ela fazia causava espanto
Mas a verdade é que era adorada unânimamente
Uma senhora que deixava todo mundo feliz
Falava que amar era o mais importante
Depois de gargalhar é claro
Para coisas boas tinha um excelente faro
Morava dos cafundós de Santo Amaro
Achava que todo mundo sempre precisava de um reparo
Porque ter uma vida perfeita era
O que havia de mais raro.
 
-Simone-

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