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SER DIFERENTE TAMBÉM É SER GENTE...

Um dia conheci
Uma menina que falava pelos cotovelos
As conversas dela eram bem ecléticas
 Uma mistura das Leis de Física com todos os tipos de novelos
 
Tinha muitas idéias à partilhar
Gostava de na imaginação mergulhar
O mundo dela era um dia e noite sem parar de sonhar
 
Menina que sabia combinar as palavras
De um jeito que tudo ficava engraçado
Era um contorcionismo de letras sem fim
No riso eu me perdia
Toda vez que sentava para ouvir esta guria
 
Todo mundo achava que ela era louca
Porque falava sozinha
Porque via magia em tudo
Porque era feliz com as coisas mais simples
Porque não era Maria-vai-com-as-outras
Porque se divertia como poucas
 
Se ela era louca
Eu gostava da loucura dela
Porque era livre
Porque era sincera
Ela me ajudava a ver a vida de um jeito completamente inédito
Quando me deu um óculos de lentes
Para ver coisas que nunca pensei pudessem existir 
Que distorciam uma realidade ruim para uma realidade boa
Passei a prestar atenção no que ignorava
E ignorar o que antes mais me impressionava
 
Agora me chamavam de louca também
Eu e a menina
Dupla de loucas
Porque eu aprendi a ser diferente com ela
Ser diferente num mundo no qual todo mundo é igual
Pode se tornar mágico e colorido como uma grande festa de carnaval
 
Esta menina me ensinou que ser diferente
É renascer para uma vida onde as possibilidades são mais ricas
A gente pode ser livre para ser quem mais gosta
O mundo interno da gente
Transforma o mundo de fora
É como se permitir abrir uma caixa de Pandora
Mas para descobrir uma realidade melhor
Abraçar a honestidade da vida
Pavimentar novas avenidas
E ao longo delas plantar uma coleção de margaridas
 
A menina que falava pelos contovelos
Virou a minha melhor amiga
Fascinante e adorável era aquela rapariga
 
-Simone-
 


"PAPEL DE CARTA"


Hoje ela manuseou-me com mãos exasperadas. Quando pousou a ponta da canela sobre mim, senti seus punhos trêmulos. Começou a escrever uma carta de amor. Contou a história de quando se conheceram. De repente, senti lágrimas inundarem-me as folhas. O rosto dela era de um rubor carmim. Pude ver nos seus olhos marejados de lágrimas, a dor de um coração partido, o sofrimento do despedir-se, da perda que não se quer viver. Testemunhei nas suas palavras a intensidade de seu amor por ele. Um amor pleno em sinceridade. De uma transparência nua. Suas mãos húmidas traduziram-me o redemoinho de emoções que perturbavam sua mente e deixavam melancólico o seu coração.
Ela levou um longo tempo para terminar a carta. Hesitou no tom das palavras. Olhou em direção à janela do quarto várias vezes com um olhar perdido, aturdido. Riscou algumas partes. Por vezes perdeu-se nos próprios contrastes. Quando dobrou-me, imóvel permaneceu por alguns momentos. Desdobrou-me novamente. E passou a contemplar as palavras gravadas sobre minhas páginas.
Num rompante de instante, rasgou-me em pedaços, como se eu fosse um vestido de cetim. Deu-me as costas e saiu correndo pelos corredores da casa, como uma alma assombrada, buscando desvencilhar-se de um momento insustentável de desespero e vazio.
Fiquei deixada e desfigurada no frio do assoalho. Por conta de um amor interrompido, fui decaptada  e esquecida.
 
-Simone-

"A BANANA"

A banana quando pequena
Tinha complexo de marciana
Por ser verde e provinciana
Dependurada no galho
De cabeça para baixo
Pálida era como um morcego que viu uma réstia de alho

Quando cresceu
Tornou-se linda e amarela
Parecendo com todas as irmãs dela

Tinha orgulho de ter curvas perigosas
As outras frutas a chamavam Dona Vistosa
E queriam que ela casasse com o Visconde de Sabugoza

Quando a banana chegou à terceira idade
Da juventude morreu de saudade
Ficou mole e cheia de catapora
Vivia num pânico de ser jogada fora

Acabou perdendo a casca
Na rua da amargura
Pisada e esmagada em cheio
Foi para a sepultura

-Simone-

DIA DO PROFESSOR...

 
 
A professora entrou na classe
Teve uma surpresa
Esqueceu por um minuto do giz a aspereza
Para olhar o que estava em cima de sua mesa
Maçãs
Pequenos bilhetes
Caixinhas de presente
Contemplou dos alunos um olhar inocente
 
As crianças lhe deram os parabéns
Ela sorriu emocionada
Com o carinho da garotada
Não fazia idéia de que era tão querida
Quem sabe até mesmo a preferida
 
As crianças gostavam mesmo dela
Viviam todos os dias
A expectativa de um novo encontro
A professora era dedicada e paciente
Conhecia de cada aluno a personalidade
Dos sentimentos deles a complexidade
Juntos tinham muita cumplicidade
 
Cada aula
Era um dia de transformação
Tanta coisa a professora gostava de ensinar
E os alunos estavam lá não para decorar
Mas para aprender pelas lições se apaixonar
A professora falava devagar
Os alunos interessados se enclinavam para escutar
Nas palavras da professora queriam velejar
 
Para cada um deles ela tinha um significado
Aquela que traduzia a linguagem dos livros
Desvendava mistérios
Alimentava a imaginação
Tinha sempre uma resposta para toda a interrogação
Ensinava a ter coragem
Nunca achava que pergunta fosse bobagem
 
Acreditava no potencial de cada um
Nunca desencorajava os sonhos de nenhum
Sabia que as crianças tinham sabedorias diversas
Que o jeito de pensar, sentir e se expressar
De cada um eram únicos
Só precisavam na auto-confiança se aprofundar
 
A professora sonhava com seus alunos
Como pessoas que no futuro seriam felizes
Saberiam definir promissoras diretrizes
Seriam sempre conquistadores do saber
Não parariam de crescer
E outros fazer amadurecer
 
Naquela sala de aula
Professora e alunos eram companheiros de jornada
Estavam todos construindo com cada novo bloco uma estrada
Todos juntos remando na mesma jangada
Aprender e ensinar era gostar de ver
Procurar entender
Saber conviver
Ouvir com atenção para perceber
Imaginar para antever
Ler e escrever
Amar, ter respeito e vencer
 
Todo dia era um renascer para algo novo
Descobrir terras inexploradas
Construir nelas moradas
Não importa se com sol ou trovoadas
 
Ensinar é um desafio
O aprender é mergulhar num rio
Seguindo na correnteza do conhecimento
Que acontece no sendo e no vivendo
 
Professor é mais do que um tutor
É um agricultor semeando crianças na terra da sabedoria
Todos os dias este agricultor está lá
Regando as sementes
Nutrindo os brotinhos
Fazendo crescer
E sem mesmo perceber
Nestas sementes cria também raízes
Tanta dedicação
O fará para sempre na vida e na lembrança delas permanecer
Do amanhecer da vida
Até o anoitecer...
 
-Simone-

NOS TRILHOS DA VIDA...

 
Sentou-se e pensou sobre as coisas que fez
As vozes internas que silenciou
As memórias que construiu
Os legados que deixou
As pessoas que amou
Os lugares por onde passou
Os sentimentos que desvelou
As vontades que sufocou
As vitórias que conquistou
As dores nas quais mergulhou
 
Inventário de uma vida
Vivida na intensidade dos acontecimentos
Acertos incríveis
Erros tolos
Medos impensáveis
Coragens inabaláveis
Tristezas opressoras
Alegrias explícitas
Pesadêlos tortuosos
Realizações transformadoras
Paixões arrebatadoras
 
O viver é um carrossel de emoções
Uma montanha russa de trepidações
Um vulcão de erupções
Um oceano de reflexões
Um universo de recordações
Um caminho sem interrupções
Um cenário de revoluções
Uma janela de revelações
Um eterno exercício de despedidas e reconciliações
 
-Simone-

ALMA APAIXONADA...

 
Uma alma apaixonada
Cria portas abertas
Para a liberdade do sentir
Um sentir que  tem asas
Asas que levam as emoções
Para crescer no ninho
Do alvo da paixão
 
Para uma alma apaixonada
Aquele ser é um mar para se mergulhar
Perder-se nas suas profundezas
Depois renascer sol
Brilhando para o eterno amanhecer
 
A alma apaixonada
Vê jardins no outro
Um mundo secreto a se desvendar
A paixão traduz-se nas entrelinhas
Das belezas que se projetam na pessoa
Que se torna então perfeito palco
Para que a dramaturgia do amor
Se faça vivente...
 
-Simone-


CRIANÇAS NO CINEMA...

 
 
Um bando de crianças foi ao cinema
Assistir a um filme sobre um ovo
Em clara e gema
 
Quando o ovo rachou
A garotada não aguentou
Caiu na maior gargalhada
Até lágrimas escorriam
Quanto mais riam
 
O que havia de tão engraçado
Num ovo quebrado
Eu me perguntava
A cada nova gargalhada
De um filme que era uma marmelada
 
Era um festival de mostrar os dentes e janelinhas
Até a altura das campainhas
Mal conseguiam parar para respirar
Era um absoluto desvairar
 
Quando o ovo partido foi para a panela
A criançada ficou em suspense
Chutaram sem querer um ao outro a canela
O cinema a esta altura
Estava cheirando a pão com mortadela
As menininhas todas lindas
Pareciam irmãs da Cinderela
 
Assim que a gema do ovo fritou
A garotada no riso engasgou
Feliz da vida cada um ficou
Com o ovo que na panela
O destino esmagou
Virou omelete
Grudento que nem chiclete
 
Ao final do filme
O ovo era pura gororoba
Clara e ovo
Ficaram com cara de paçoca
Cor de tapioca
E tão duros
Que nem com golpe de judoca
Daria para repartir o que deles restou
Para a lata de lixo
O ovo em alma e coração o cozinheiro arremessou
Com um olhar de desprezo dele
O pobre ovo desconjurou
Uma aberração da culinária se tornou
 
A criançada de tanto gargalhar
O estômago embrulhou
Como se tivessem comido o ovo
Que no filme estragou
Saíram da sala de cinema com dor no maxilar
Ela era de amargar
Mas o que importa é que se divertiram
Livres, leves e soltas como nunca
Riram!
 
-Simone-
 
 
 
 
 
 

CONJUGANDO O VERBO ESCREVER...

 
Gosto de escrever sobre
Caminhos e lugares
Janelas e portas
Casas antigas
Manhãs de neblina
Noites de serração
Dias de chuva
 Vida no campo
Pessoas simples
A Natureza e seus humores
Problemas sociais
Personalidades
Mães e crianças
 
Fazer uso do senso de humor
Expressar indignações
Analizar o passado
Refletir sobre o presente e o futuro
Questionamentos intermináveis
Sentimentos profundos
 
Política e políticos
Tempos de escola
Professores
Bruxas e assombrações
Mistérios da noite
Mulheres
Terceira idade
Amor e dor
Heróis anônimos
Erros ortográficos
Jardins e correntezas dos rios
 
Escrevo porque não consigo represar os pensamentos
Sentimentos querem ter voz
Gosto de fazer nascer do nada
Desafiar minha criatividade
Tentar me traduzir
Fazer as pessoas pensarem
E, se possível, especialmente rirem
 
Escrever é libertar
Reviver
Construir
Engravidar a mente
Fazer o parto das emoções
Ser para o mundo de fora
 
-Simone-
 

MAGIA DA NOITE...


Estava esperando a noite chegar
Para meus olhos no céu mergulhar
 
As estrelas piscando prá mim
São tantas que não consigo ver delas o fim
 
A escuridão da noite
Revela-se em muitas belezas
Que tem o poder the dissipar
Um dia de asperezas
E acalmar uma alma
Mergulhada em tristezas
 
Gosto de ouvir dos grilos o canto
Música cheia de encanto
De repente me espanto
Com das corujas o pranto
 
Vaga-lumes dançam desvairados
Por horas à fio
Suas luzinhas ascendem e apagam
Até cairem no chão desmaidos
 
A magia desta imensidão escura
Apenas discretamente banhada pela
Radiante lua que flutua
Tem o charme de uma reluzente armadura
 
Gostaria de ter asas
Para no céu da noite me perder
Deixar-me ir até não mais poder
Num sonho acordado amanhecer
Para contemplar de um novo dia
O resplandecer!
 
-Simone-