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"PAPEL DE CARTA"


Hoje ela manuseou-me com mãos exasperadas. Quando pousou a ponta da canela sobre mim, senti seus punhos trêmulos. Começou a escrever uma carta de amor. Contou a história de quando se conheceram. De repente, senti lágrimas inundarem-me as folhas. O rosto dela era de um rubor carmim. Pude ver nos seus olhos marejados de lágrimas, a dor de um coração partido, o sofrimento do despedir-se, da perda que não se quer viver. Testemunhei nas suas palavras a intensidade de seu amor por ele. Um amor pleno em sinceridade. De uma transparência nua. Suas mãos húmidas traduziram-me o redemoinho de emoções que perturbavam sua mente e deixavam melancólico o seu coração.
Ela levou um longo tempo para terminar a carta. Hesitou no tom das palavras. Olhou em direção à janela do quarto várias vezes com um olhar perdido, aturdido. Riscou algumas partes. Por vezes perdeu-se nos próprios contrastes. Quando dobrou-me, imóvel permaneceu por alguns momentos. Desdobrou-me novamente. E passou a contemplar as palavras gravadas sobre minhas páginas.
Num rompante de instante, rasgou-me em pedaços, como se eu fosse um vestido de cetim. Deu-me as costas e saiu correndo pelos corredores da casa, como uma alma assombrada, buscando desvencilhar-se de um momento insustentável de desespero e vazio.
Fiquei deixada e desfigurada no frio do assoalho. Por conta de um amor interrompido, fui decaptada  e esquecida.
 
-Simone-

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