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A MENINA QUE GOSTAVA DE LANTERNAS CHINESAS...


Era uma vez, uma menina que gostava de lanternas chinesas. Sua mãe costumava frequentar um antigo bairro chinês e a garotinha sempre a acompanhava nas visitas. Quando a menina entrava nas lojas, ficava encantada com a quantidade e variedade de lanternas penduradas no teto. Concentrada, observava os detalhes de cada uma. Cores, formatos, materias dos quais eram feitas, estilos. Na sua imaginação de criança, já se via decorando uma floresta inteira com as lanternas durante as noites quentes de verão. Era amiga dos animais silvestres e das grandes árvores. Engajava-se em longas conversas com eles e se divertiam muito juntos. A menina tinha a capacidade de entender a linguagem dos seres das florestas como se nascida deles. Cada vez que a menina ia com a mãe à uma loja chinesa, o dono da loja, sabendo da fascinação da menina pelas lanternas, lhe presenteava com uma pequena. Aí a menina ia para a floresta que ficava no quintal detrás da sua casa e procurava um bom galho de árvore para pendurá-las uma a uma. As árvores ficavam felizes com as bijuterias, uma mais bonitinha do que a outra. No final do verão, a floresta inteira era um festival de cores. Enquanto os pais da menina iam dormir, toda a noite ela saia de fininho para a floresta e acendia as lanternas. A floresta ficava linda, toda iluminada, toda colorida, reluzente em contraste com a escuridão da noite. Mariposas e vagalumes adoravam dançar ao redor das lanternas. Era tudo muito mágico, muito encantador. A menina trouxe alegria à floresta, que se sentia tão esquecida, envelhecida, com pouca auto-estima, como se, de floresta, tivesse virado um pântano onde a vida não tinha mais vontade de viver. Graças à generosa menina e às lanternas, a floresta permaneceu um mundo festivo. Um mundo onde luz e sombras brincavam feito crianças. Onde a felicidade era permanente residente e o tempo não tinha pressa de passar.
 
-Simone-
 


VIDAS QUE A GENTE NÃO VÊ...

 

Resolvi sair e tirar o dia para prestar atenção nas coisas...
 
Não havia reparado na beleza da arquitetura dos edifícios
No degradê de cores nos jardins
Na felicidade das flores depois da chuva
No azul fulgurante do céu...
 
Não havia reparado no desfile de frondosas árvores ao longo das ruas
No movimento de pessoas nos cafés
Na dinâmica intensa da cidade
Nos desdobramentos dos acontecimentos em toda a parte...
 
Não havia reparado nas crianças brincando nos parques
Nas estátuas decorando as fontes
No estilo das livrarias...
 
Não havia reparado nos aromas de tempero dos restaurantes
No perfume das lojas
Nas pessoas debruçadas nas janelas
Nos casais de mãos dadas
Nos passarinhos conversando em melodias...
 
Não havia reparado, sobretudo, na diversidade de expressões
No rosto das pessoas
Quantos pensamentos perdidos
Quantos sentimentos misturados, escondidos
Quanta coisa florescendo e desaparecendo...
 
Tanta vida que a gente não vê
Vivendo ao redor da gente...
 
-Simone-


A CHUVA...

 

Uma chuvarada despenca do céu
Forrando o ar com um prateado véu
 
Nuvens pesadas e ferozes
Destilam a fúria dos algozes
 
É lindo ver toda esta metamorfose
De cores, perfumes e sons
Num emaranhado de tons
 
Vejo que a natureza fica feliz
Com este banho fresco
Que vem num rompante de instante
E vai embora num piscar de olhos
Como são as chuvas de verão
Que de um roxo furioso o céu termina num alvo algodão
 
Gosto da simplicidade da chuva
E da gama de sentimentos que ela desvela
Não tem pretençao
 Nem tempo para indecisão
Emoções em combustão
 
Depois que ela passa
Tudo parece tão incrivelmente vívido
O verde das matas
O cheiro da terra bruta
A vontade de crescer da fruta
 
Gosto do som da chuva no telhado
Observar os pardaizinhos se refestelando nas poças que se formam
E contemplar o fim de tarde alaranjado
 
É chuva caindo
E as tristezas do céu se esvaindo
 
Venha arco-íris
Combinar suas cores com a flor de amarílis
 
-Simone-
 


HOSPITALIDADE À BRASILEIRA...


O balanço final da Copa do Mundo de 2014
Pode não ter sido um dos mais felizes para nossa seleção de futebol
Mas como povo e país
O Brasil e os brasileiros foram campeões em hospitalidade
Nada menos do que 95% de aprovação!!!
Nada dá para não morrer de orgulho!
 
Nos quesitos simpatia e calor humano disparamos na frente mesmo
O excelente feedback dos estrangeiros que estiveram com os pés e corações no nosso Brasil
Resgatou em muito o orgulho por nossas raízes
Andávamos mesmo bem desiludidos como nação
Com a auto-estima numa baixa extrema
O carinho dos estrangeiros conosco foi uma verdadeira injeção de ânimo, de vigor emocional!
 
Nos demos conta de que não precisamos com urgência somente de
Hospitais, escolas, habitação, empregos, uma vida na qual todos possam viver com dignidade
Mas também muitas vezes precisamos de um abraço como povo
Precisamos nos sentir queridos, gostados, amados
Porque a gente sabe gostar, amar, se doar, hospedar
 
Nós brasileiros temos isto nas veias
A gente gosta de fazer as pessoas sentirem-se em casa na nossa presença
É instintivo, faz parte das nossas essências
É gostoso, gratificante, edificante
 
Tempos antes do início deste Copa
Lembro-me o quanto parte da mídia estrangeira
Publicou listas e listas, capas e capas, matérias e matérias
Retratando o Brasil como um país selvagem, caótico, detestável
Nós brasileiros como ignorantes, perigosos, sem um pingo de decência
Até fizeram propaganda para que as pessoas desistissem da vinda ao Brasil
Foi um massacre!
 
Ficamos divididos
Por um lado envergonhados, por outro revoltados
Por outro nos questionamos se todas aquelas críticas implacáveis
Faziam sentido ou não
Me sentí colocada à prova
Nós brasileiros nos auto-criticamos muito
Isto é FATO!
Ficamos tão sensíveis aos problemas que temos
Que não conseguimos ver arco-íris, só nuvens pretas carregadas de tempestade
A gente se acostuma a se criticar tanto que vira vício arraigado
Me peguei neste círculo vicioso, confesso!!
 
Mas aí uma coisa é criticarmos nós mesmos
Outra coisa é termos pessoas de fora fazendo as mesmas críticas ou críticas piores
Aí a gente sente por dentro aquela coisa amarga, de se sentir injustiçado
Me senti assim, honestamente, como brasileira lendo aqueles artigos
Ficava me perguntando: "Será que a gente era tudo aquilo mesmo"!???
Algumas coisas achei que, infelizmente, sim
Tínhamos que "vestir a tal da carapuça"
Olhar de frente nossos defeitos
Nos darmos conta do que precisamos mudar radicalmente certas coisas
Outras coisas achei injustiças, desrespeito
Falta de conhecimento de causa de quem não mora no Brasil
Mas acha que sabe tudo o que acontece e por que acontece
 
Aí uma jornalista holandesa parece ter vindo ao nosso resgate
Ela afirmou o que sabíamos, mas tínhamos medo de admitir
Que erámos um povo crítico demais com nós mesmos
Outros povos, apesar de viverem problemas sociais semelhantes ou piores,
Não se comportavam assim
Não "malham" implacavelmente as próprias raízes
Aí ela fez uma lista de coisas das quais deveríamos nos orgulhar como brasileiros
Coisas que nos esquecemos ou nunca paramos para pensar
Tão emaranhados estamos nas críticas à nós mesmos
 
Assim, aquelas duas pontas da mídia estrangeira
Uma criticando e a outra elogiando
Serviram como uma grande reflexão para mim como cidadã brasileira
Foram perspectivas muito importantes
Abriram bem meus olhos
Me fizeram chorar e sorrir
Ter vergonha e orgulho
Foram um verdadeiro chacoalhão na minha identidade brasileira
Daquí para frente vou me policiar bem mais
Acho que é preciso que todos nós saibamos
Encontrar um ponto de equilíbrio
Entre a crítica e o elogio
Para cada crítica aos nossos problemas, vamos emendar com um elogio
Porque a gente tem sim o que elogiar
Olha só os 95% em hospitalidade que nos condecoraram!
Olha as nossas fauna e flora!
Nossa comida!
Nossas artes tão ricas!
Nossas experiências!
Nossas diversidades!
Nossas cores e sabores!
Nosso clima!
Nossos progressos (ainda não suficientes, sim, mas não vamos negar o que andamos, o que conseguimos mudar)!
Nossa criatividade!
Nossa capacidade de acolher sem olhar a quem!
Nossa alegria que irradia!
 
A gente tem muito o que mudar, melhorar, construir
Sem dúvida alguma!!!
Mas temos também muito do que aplaudir
A gente precisa SE aplaudir também!!!
Senão nossa dignidade será goleada não por 7x1
Mas por 17x1!!
E dignidade é uma coisa que a gente nunca, jamais deve deixar morrer
Ou ser jogada, esquecida na sarjeta da vida
Vamos exigir respeito, mas também vamos nos auto-respeitar primeiro
Vamos nos amar como indivíduos primeiro
Para que a gente saiba como amar o próximo
Porque só quando a gente saboreia o amor por nós
É que sabe o quando pode fazer diferença na vida do outro
Pode ser a diferença entre a felicidade e a tristeza
O encontro e a desolação
A vida e a morte.
 
-Simone-
 

SÁTIRA DE UM NAMORO DE JARDIM...


Na hora marcada
O rapaz elegante adentra o jardim
Tão nervoso, por um triz não levou um escorregão
Vexame que poderia colocar em risco sua fama de valentão
Munido de uma rosa na mão
E com ares de galante conquistador
Tenta impressionar a moçinha
Que tinha um olhar lânguido como de uma fuinha
A coitada estava exasperada
Com receio que tudo acabasse em marmelada
O rapaz parecia ser um bom partido
Apesar da panca de metido
No fundo do quintal
O cachorro desconfiado deu um estridente latido
Sentaram-se no banco
Sem saber o que dizer
Ele havia escrito um discurso romântico
Mas no calor da emoção
As palavras de sua cabeça desapareceram de sopetão
O coitado começou a gaguejar
A moçinha em pensamento a praquejar
À certa altura e nada acontecendo
Ambos não conseguiam conter um irresistível bocejar
O silêncio era de amargar
Aquele romance de jardim parecia estar fadado a fracassar
Antes mesmo do próximo olhar se cogitar
O tempo foi passando
E o nervosismo mútuo pouco à pouco se dissipando
Ele de repente lançou uma bela piscada
Que causou no coração da moça uma fisgada
Estavam enamorados finalmente
Ambos agora promissores pretendentes
O rapaz tomou coragem e lascou um beijinho na moça
Que cheirava à detergente de lavar louça
O rosto dela ficou vermelho como uma cereja
Após sentir dele um bafo pesado de cerveja
A vizinha que observava à tudo atrás do muro
De tanta curiosidade ficou com o pescoço duro
Não conseguiu conter a emoção
De ter  muito para fofocar na próxima procissão
Mulher de língua comprida
Que de tanto falar pelos cotovelos
Criou na língua um calo
Duro como de um brócolis o talo
À certa altura da conquista
O rapaz tentou avançar o sinal
A moçinha ofendida lhe lascou uma bofetada
Que senhora raquetada!
O rapaz nocauteado perdeu os sentidos
Sem dar-se conta, primeiro, dos pecados cometidos
A moçinha arrependida
Jogou-se no chão
Para socorrer o bonitão
Passou a alisar dele o viçoso bigodão
Que mais parecia um maço de algodão
Quando o pobre ainda atordoado pela chapuletada
Pediu que a moça lhe desse com amor um beijo
Uma legião agora de bisbilhoteiras
Se posicionaram atrás da vegetação
Em pelotão
Todo mundo queria ver
Que rumos levaria  aquele romance de revista
Desabrochando em direção ao anoitecer
O rapaz depois do beijo
Sentiu-se leve como um pão de queijo
Perdidamente apaixonado estava
Pela moçinha desnaturada
O namoro de jardim
Acabou na porta da igreja
Depois de uma cerimônia benfazeja
Os dois pombinhos
Para a lua-de-mel partiram
Em amor e paixão se confundiram
Foram felizes e muito riram
Juntos para sempre
Almas gêmeas se descobriram
-Simone-


COPA DO MUNDO 2014 NO BRASIL...


Ontem nossas cores foram preto, vermelho e amarelo
A gente vestiu a camisa da Alemanha no coração
Para torcer por este time maravilhoso
Que não só deu um show de futebol
Mas também de civilidade e simpatia
Durante todo o período da Copa
 
Merecidamente a Alemanha foi a vencedora
Ganhou a tão cobiçada Copa
O time fez tudo certo, foi mestre
Dentro e fora do campo
O Brasil não estava lá no podium
Mas um time que amou o Brasil e os brasileiros estava
 
Sim, a Alemanha foi o time que nos goleou
De modo inacreditável
7x1
Foi nossa maior derrota na história do futebol
Como foi sofrido ver nosso time perdido
Naquele tiroteio de gols sem fim
E quando a gente achou que até mesmo nossa dignidade
Como time, país e povo havia sido despedaçada
Quem veio ao nosso resgate foi justamente o time alemão
Enquanto nossa imprensa e a imprensa mundial estavam
Malhando o nosso time e nosso povo
O time alemão estava fazendo o oposto
Nos salvando de nos afogar naquele naufrágio sem precedentes
 
A atitude do time alemão foi ímpar!!
Igualmente sem precedentes
Quanta gratidão fica por estes indivíduos incríveis
Profissionais, talentosos, generosos
Professores em educação e humanidade
Um time nota 10!
 
Nós perdemos deles no campo
Mas ganhamos em muito com as atitudes daqueles rapazes
Dentro e fora do campo
Foram eles que nos provaram o significado exato
De ordem e progresso
 
O carinho deles por nós e nosso país
O orgulho que eles nos devolveram de nós mesmos e nossas raízes
Foram uma injeção de civilidade para nós
Algo que precisávamos urgentemente
 
Ao time alemão e aos fãs alemães que estiveram no Brasil
Deixo o meu muito obrigada por tudo
O legado que nos deixaram ficará para sempre vivo
Considerem-se parte do Brasil
E parte do coração de cada brasileiro
Que se sentiu tocado pelas demonstrações de respeito e afeto
De vocês!
 
Com vocês aprendemos o que é disciplina
Empatia, sinceridade, respeito
E, sobretudo, grandeza de caráter
 
Brava e bravo Alemanha!!
 
-Simone-
 


AS DUAS METADES DE MIM...

 
As duas metades de mim
Se conversam muito
Tentam se entender
Mas estão cada uma vivendo
Momentos paralelos
Muito distintos
 
As duas metades de mim
Têm idades diferentes
Uma tem minha exata idade cronológica
Esta é a metade que tem uma grande bagagem de experiências vividas
A outra é jovem, inexperiente, assustada
Cheia de perguntas
Cheia de procuras
Cheia de incertezas
Cheia de sonhos impossíveis
 
As duas metades de mim
Têm vivido em constante revolução de vários anos para cá
Tantos embates
Mas também tantas descobertas
Tantos aprendizados
 
Estas duas metades de mim
Vivem num mundo onde o sentimento impera
Muitos sentimentos falam
Outros calam
Outros não sabem onde encontrar abrigo
Onde encontrar respostas para certas coisas que acontecem
 
O que sinto é que estas duas metades
Estão cada vez mais distantes uma da outra
Menos compatíveis
Menos tolerantes
A que sempre viveu na sombra
Quer sentir-se na luz
Quer ter uma voz que pode ser ouvida
Um sentimento que possa ser vivido
Ela quer ser, simplesmente ser
Ser pela primeira vez
Algo além do que uma metade
Ela sonha em ser
O todo...
 
-Simone-