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A FOFOQUEIRA...


Era uma vez
Uma cidade pequena feito um ovo
Lá estava a fofoqueira no meio do povo
Toda vestida de roupas com cheiro de mofo

Como clássica fofoqueira
Tinha uma língua que trabalhava na velocidade de uma britadeira
Para não perder nenhum detalhe da vida alheia
Sempre enfurnada estava a fofoqueira
No salão da cabelereira
Na casa da bordadeira
No meio da roça com a carpideira
Na cozinha da merendeira
Até estacionada do lado da mãe dando para o filho a mamadeira

Dona fofoqueira
Observava à tudo e à todos sem exceção
Se fazia de beata na procissão
Mas por detrás das portas
Ouvia as conversas como se aquilo fosse ofício de uma profissão
Sua língua era tão venenosa
Que era capaz de causar choques de eletrocução

Não poupava nem a própria família
De quem invejava a mobília
E desconjurava a filha
Andava pela cidade feito uma pilha
Sua língua media mais do que uma milha

Foi levada ao cemitério quando morreu
Pressentindo o transtorno de seu descanso
O defunto vizinho se adiantou e escafedeu
Sua legendária língua, mesmo à sete palmos do chão
Continou ativa para a posteridade
Afinal, tagarelar era sua verdadeira afinidade
Imperiosa vaidade
Jamais deixou saudade

Finalmente a cidade ficou livre
Da fofoqueira belicosa atividade
Fonte de mediocridade
Provinciana mentalidade
Sem precedentes insanidade
Abominável anormalidade!

-Simone-

JANELAS...


Janelas abertas
São o portal que conecta o mundo de dentro com o mundo de fora
São olhos e ouvidos
Sonhos debruçam-se nelas 
Palanque de onde se vê o tempo passar
A vida se desdobrar em milhares e milhares de momentos...

Janelas permanentemente fechadas
São silêncio de um sepulcro
O despedir-se para o real existir
Boas-vindas para a solidão
Que nem sempre se deseja

Janelas com senhoras singelas
Que vivem na urgência de à tudo registrar como memória para a posteridade
Janelas com crianças levadas
Que gostam de viver mergulhadas em travessuras sem fim
Janelas com a juventude romântica
Trocando olhares furtivos e sorrisos promissores

Janelas são molduras
Que fazem as pessoas que aparecem nelas
 Retratos

O abrir de janela
Todos os dias de manhã 
É um convite para abraçar uma vida nova
Em cores, perfumes, formas, ruídos e surpresas

O fechar de janela
Nos fins de tarde
É o repouso necessário
Diante da dinâmica apressada da vida
A privacidade com a noite que chega

Um dia de ventania
O primeiro emissário das tempestades
Faz as janelas se debaterem em desespero
O fechar de janela nestas ocasiões
Anuncia a busca de abrigo
O respeito pelo poder da Natureza
Que pode ser avassalador

Janelas falam e calam
Podem ser libertação e clausura
Felicidade e amargura
Realidade pura
Esperança e, até mesmo, cura!

-Simone-

CENÁRIOS DE DENTRO...

No silêncio  me descubro. Ouço as vozes dentro de mim conversarem, procurando entender o meu todo. Na minha cabeça passa um filme, tendo como cenário experiências vividas. Me vejo rindo, chorando, surpreso, temeroso, valente, indeciso, aluno da vida. A vida é uma estrada cheia de inúmeras faixas, curvas perigosas, sinais de alerta, desvios, atalhos, estradas acidentadas, caminhos tranquilos, as vezes colorida, as vezes preto e branca. Tenho emoção no pensamento e razão no coração. Sou muitos países, até mesmo muitos planetas. Minhas órbitas desafiam as leias da física. Dentro de mim posso ser personagens de dramas e comédias. Minhas imperfeições se estranham com minhas virtudes. Esta é uma batalha constante. Sou o artista da arte de ser eu. Desenho meus traços, me pinto, rabisco, busco uma forma, uma linha que me leve a descobrir novas possibilidades de me reinventar. Há momentos que quero apagar certas coisas, mas fica um borrão. Não dá para tornar o feito invisível. Ele está sempre lá mesmo que deixe num canto, numa sombra, ele me lembra que não posso deixar de ser minha essência. Minha essência é, ao mesmo tempo, cárcere e libertação. Sou cheio de perguntas e poucas respostas. Tento me definir mas é um enredo complexo demais para traduzir. Dou-me ao luxo de gostar-me e desgostar-me. Preciso de remendos quando tento me descobrar em muitos. Minha diversidade é fruto do que procuro criar. Transito entre sonho e realidade. Amor e medos.                                      -Simone-