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"MULHERES NA COZINHA"


Numa tarde 
As amigas vizinhas se encontraram
Para trocar receitas de pão de alho
E colocar na testa dos outros
Um monte de galho

Uma delas reparava sempre 
Como as pessoas se vestiam
Mas descrevia mesmo
Quando observando pelo buraco da fechadura
 Como pareciam quando elas se despiam

A outra reparava 
Dentro da casa dos outros
Tipos de móveis
Tapetes, objetos, jóias
Esta de tão vil
Foi praticamente criada num covil de jibóias

A moça menos falante
Era a beata da igreja
Que por detrás de quatro paredes 
Se empanturrava de cerveja
E roubava sempre do bolo a cereja

As amigas nas fofocas se perdiam
Enquanto receitas repetiam
Falavam mal de todo mundo
Sem nenhum pensamento muito profundo

Todo mundo tinha um defeito
Do dono da pastelaria até a sobrinha do prefeito
Mulheres sem noção
Colocavam na moral dos outros
Sempre uma interrogação

Julgavam a vida alheia
Como se a delas fosse perfeita
Escondiam as próprias mazelas
Aquele bando de matusquelas
Apontavam o dedo nos outros e esqueciam elas

Só que neste dia
A vizinhança de tão cansada
De ser alvo de intrigas
Resolveu se vingar
Marcaram com as fofoqueiras na frente de um bar

As inúteis mulheres
Do babado contra elas
Nada sabiam
Preocupadas ao encontro iam

Quando chegaram lá
No meio da praça pública
Sem ao menos terem tempo de pronunciar uma palavra
Foram alvejadas de marmelada
Cada uma ficou deveras bezuntada

Ultrajadas começaram a xingar o povo
Que agora partiu para uma chuva de ovo
Ficaram cheirando à peixes estragados
Os cabelos de barro engomados
Os maridos atrás das cercas observando à tudo transtornados

Expurgadas foram da cidade
Que estava farta de tanta falsidade
Era hora de escancarar de cada uma a intimidade 
Inventaram contra as pessoas de bem barbaridades
Mulheres afeitas à inutilidades

Condenadas por falso testemunho e calúnias
Foram parar atrás das grades
Conseguiram finalmente o status de celebridade
Quando caíram no meio da criminalidade

Entretanto
A vida como presidiárias
Não mudou nelas o comportamento de fofoqueiras
Falavam mal das outras com palavras que tinham o poder
De bombas incendiárias

Na carceragem ficaram famosas
Por mentiras escabrosas
Riam de todo mundo as argilosas
Um dia se deram mal
Quando a carcereira se encheu 
E mandou todas elas para a solitária
Agora nenhuma mais era ré primária
Sem tomar banho ficaram 
Até que de tão pestilentas
Foi necessário para elas chamar a vigilância sanitária
Que condecorou-as como as mais fedorentas da penitenciária

Este foi o fim das fofoqueiras
Que na casa de detenção finalmente se cansaram de falar asneiras
Ao ter que esfregar o chão dos banheiros as quartas-feiras
De tanto falar mal dos outros
Por bem resolveram pendurar as chuteiras
Mulheres alcoviteiras

No fim da vida 
Viraram merendeiras
Eram especialistas numa única receita
Que foi chamada em homenagem à elas
Sopa de cobra-cuspideira

-Simone-

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