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PRESENTES DISFARÇADOS...


Muitos anos passaram desde a última vez em que estive lá. Senti saudades do que deixei e quis fazer uma visita. 
As vertentes dos caminhos eram as mesmas, sem vaidade. Uma paisagem com a nudez da humildade. O perfume dos eucalíptos que sempre me seduziu estava permeado em cada curva que se abria com similar intensidade e frescor. Os caminhos com árvores aladas por todos os lados possuem uma poesia singular. Árvores são seres soberanos, continentes. Elas sabem de muitas coisas e se revelam de tantas formas na metamorfose dos tempos. Parecem as boas mães, sempre com os braços abertos para acolher os perdidos e inconsolados. 
Cada passo que dava adiante, um filme em longa metragem passava dentro da minha cabeça trazendo o passado de volta. Mas aquele passado tão familiar, passou a se rebelar com um presente de algumas estranhezas. Encontrei muitas das casas das vizinhanças em franca ruína. Viraram esqueletos de construções. Paredes desmaiadas. Assoalhos cobertos pelo esquecimento de folha mortas e poeira. As histórias das famílias que viveram nelas se foram. Casas sem famílias são mudas, desbotadas. Casas precisam de gente dentro para ter vida. Só são felizes com vozes, perfumes, movimento, rotinas se desdobrando dentro delas.
As pessoas que seguiam seu trajeto ao longo das ruas tinham rostos desconhecidos para mim. Pessoas de um presente que não vivi. Todas muito ocupadas, apressadas, com expressões da preocupação típica dos que carregam muitas responsabilidades na bagagem. Assim como eu para elas, elas também olhavam para mim com curiosidade. Era mútua a tentativa de leitura. Tentando desbaratar a estranheza no ar, sorrí para elas. E, para minha surpresa, elas de volta para mim! Mas, na verdade, não deveria estar surpresa, porque esta coisa hospitaleira é típica dos lugares pequenos e singelos. As casas que ainda estavam sobre os próprios pés tinham todas elas as portas abertas. Portas sem trancas e janelas escancaradas de liberdade franca. Mesmo que tivesse me tornado uma forasteira naquele lugar onde um dia fui parte da colheita de pessoas, as portas e janelas abertas e sorrisos trocados, fizeram-me pertencer uma vez mais, como se tivessem aberto uma nova clareira para que eu pudesse repousar minhas raízes tudo de novo.
De uma casa no final da estrada, ouvi vozes. Uma senhora de uma janela me acenava. Convidou-me para um café, daqueles passados na hora. A casa era bem pequena, despojada dos "luxos óbvios", mas repleta dos luxos fundamentais. Retratos antigos de família decorando as paredes rústicas, chão de terra batida, toalhinhas de crochê sobre as mesas, vidros de conservas nas estantes. Pequenos animais constantes transeuntes.
Passei a contemplar minha anfitriã debruçada sobre o fogão. Era uma senhora já de uma certa avançada idade. A pele queimada do sol, as mãos enrrugadas pelo tempo, o rosto com expressões sofridas, mas um sorriso que não mudava de direção nunca. Era largo, doce, sincero. Havia uma poesia nela sem igual.
O cheiro do café em ponto de ebulição preencheu o ambiente. Café da roça, o melhor do mundo. Café que faz a gente se sentir em casa, que inebria nossos sentidos, que nos faz querer ficar para sempre.
Assim que o café ficou pronto a senhora sentou-se diante de mim. Trouxe não só o café, mas um bolo de fubá, especialidade da casa, ela disse. A senhora olhou para mim como se já me conhecesse. E na presença dela, senti como se das vidas uma da outra, já soubéssemos tudo. Mas mesmo assim, queria ouví-la. Entusiasmada com minha atenção ela passou a contar sobre as pessoas que estavam com os retratos nas paredes. Interessante que somente partilhou o que gostava neles, características de personalidade, manias, rotinas. Tinha o dom de descrever com maestria mínimos detalhes. Certamente uma pessoa que gostava de prestar atenção nas outras, que valorizava quem eram na essência, ao contrário do que tinham ou dos cargos que ocupavam. Possuía sabedoria na opiniões e doçura na voz. Hipnotizou-me a mente, os olhos e o coração.
Quando o café da xícara se esvaiu, o bolo o estômago preencheu, a conversa de palavras silenciou, era hora de continuar o meu caminho e a senhora o dela. Levantei-me da cadeira direto para os braços daquela mulher encantadora, generosa, aconchegante. Foi um abraço longo, bem dado, cheio de trocas de desejos de bem querer. Nos despedimos com os olhos de quem já estava com saudades de retornar, ver de novo. Alí, sedimentado ficou, aquele tipo de laço que sem palavras se forma e para sempre se mantém firme como o tronco de um carvalho centenário.
Por alguns minutos, antes de partir, parei para contemplatar cada detalhe de tudo o que estava deixando, porque sabia que na minha memória, um dia iria viver muitas coisas novamente naquele lugar, com aquela pessoa, naquela atmosfera cheia de significados, de riquezas sem paralelo.
Aprendí naquela visita, que a gente só é forasteiro num lugar ou diante de alguém se não souber apreciar as oportunidades que a vida abre como janelas e portas sem trancas para quem quiser abraçar o que ela tem a oferecer em forma de amor, felicidade, sabores, cores, aromas, lições... Todos eles presentes disfarçados nas coisas mais simples, nas pessoas mais singelas.  

-Simone-

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