Total Pageviews

O PREÇO DE SER MULHER...



Será que a saia está curta demais? O decote exposto demais? A risada alta demais? O olhar provocante demais? O convite explícito demais? O gesto vulgar demais? A conversa sugestiva demais? A maquiagem chamativa demais? O comportamento oferecido demais?

É estressante como no universo feminino coisas assim perpassam como um letreiro de propaganda na cabeça da gente. Nos questionamos todo o tempo. Existe sempre a preocupação com a nossa exposição, com o julgamento que será feito de nós moralmente, com nosso corpo como o que parece ser considerado o templo que determina nossa reputação frente à sociedade em geral e ao sexo oposto. 

No passado era assim... As mães, quando sabiam que a filha estava começando a namorar, sempre davam o conselho clássico: "Não deixe o rapaz tocar em "certas partes", não o deixe "avançar o sinal"." As meninas que deixavam os rapazes "avançarem o sinal" eram as meninas rotuladas de "fáceis", aquelas que não eram "de família", moças só para se tirar proveito, mas nunca apresentar para o outros, levar para a casa dos pais de jeito nenhum, muito menos casar. Meninas já marcadas como as "usáveis e descartáveis". 

O corpo da mulher sempre viveu a dicotomia entre símbolo de desejo e recato. A mulher deve ter orgulho do próprio gênero e do próprio corpo, MAS não é "de bom tom" ter o interesse ou a curiosidade de tocá-lo, observá-lo, até mesmo gostar dele em "certas partes", porque as tais certas partes são "sujas", "indecentes", "imorais". A menina cresce sendo doutrinada a acreditar que o que quer que toque no próprio corpo e dê uma sensação "diferente", é motivo para sentir culpa, é sinônimo de pecado. Se uma segunda pessoa então toca tais partes, sem ser num "contexto aceitável", como o casamento, pronto! Está qualificada a desqualificação da mulher!! 

O corpo da mulher numa escultura é sempre motivo de admiração, contanto que, pelo menos uma das tais "certas partes" esteja minimamente coberta. O que é no homem símbolo de virilidade e poder, na mulher é símbolo de vergonha e ultraje. 

Esta coisa do conceito de corpo, prazer e sexo para a mulher é toda fragmentada, porque quando a mãe diz para ela manter as pernas fechadas, não tocar as partes íntimas e não deixar ninguém tocá-las, não explica nada mais. Mas por que tem que ficar com a perna fechada? Por que posso tocar em algumas partes do meu corpo e em outras está errado? Por que se alguém tocar certas partes é tão "perigoso"? Todas estas perguntas ficam flutuando na cabeça da menina, depois da moça, e da mulher mais tarde, se não conseguir decodificar esta linguagem tão envolvida em segredos que parecem inconfessáveis. 

Quando a menina que foi subliminarmente doutrinada a sentir culpa das "certas partes", vira uma mulher, a culpa vai com ela. De repente, na noite de núpcias, tudo aquilo que era para ficar totalmente coberto, guardado, aprisionado, não tocado, é de "praxe" tornar-se permissível. Deste momento em diante, o sexo oposto assumirá "o comando" do uso de tais partes. Agora o desconcertante e inadimissível é a mulher não querer deixar ser vista, tocada, "utilizada" naqueles territórios outrora proibidos. 

O simbolismo do ato sexual é absolutamente desencontrado com a forma com que a mulher se protegeu. De repente, aquelas pernas que eram sempre para se manter fechadas precisam se abrir. Aquela parte estranha, secreta, uma incógnita perfeita, de repente é "invadida" por algo que nunca ninguém falou o que era e se podia. O rompimento da proteção do "compartimento secreto" envolve dor, sangramento, trauma. Para muitas mulheres, a penetração tem como significado uma violação de algo muito íntimo, o "dentro dela", o eu, os segredos, os medos, as inseguranças, culpas. Tudo do que mais protegeu, escondeu, defendeu, deixou trancafiado por detrás da culpa e do pecado que foram incutidos nela desde muito cedo. Sente-se vulnerável, descoberta, sem controle do próprio corpo, com a sensação de que existe algo muito errado nisto. São tantos os conflitos, as confusões, as paranóias, a solidão absoluta que o não saber traz...

Este é que é o grande problema de certos preceitos religiosos que discutem o pecado especialmente no que se refere ao universo feminino. Se diz é pecado, mas não se explica o por que de ser pecado. As avós foram criadas assim, criam as filhas assim e as filhas criam as filhas assim. Tudo isto é replicado sem explicações. Simplesmente se transfere o conceito de pecado, da culpa, da proibição sem se analizar o contexto. A mulher aprende sobre sexo caindo de pára-quedas na situação, completamente desavisada. 

No caso de uma mulher exposta ao procedimento radical da mutilação genital feminina, o ato sexual torna-se uma tortura, porque à ela é negado o direito de sentir prazer na relação íntima com um homem. Só a ele é permitido o prazer. Ter a possibilidade de sentir prazer para uma mulher nestas culturas é motivo de desonra, vergonha para a família. Só de se aventar, mesmo que em sonho, a possibilidade de uma mulher ter interesse em sexo é visto como a máxima indignidade. As meninas passam por tal procedimento entre as idades de 9 e 12 anos. Além de o procedimento ser fisicamente abominável, emocionamente tem um efeito completamente devastador! Como é que uma menina vai entender que uma parte que nasceu com ela vai precisar ser removida para melhorar suas chances de casar e ter uma reputação "acima de qualquer suspeita"?? Esta é a violação suprema do corpo da mulher, num círculo onde a família e a comunidade se sentem donas dos direitos dela de ser mulher. O mais inconcebível é ver que as mães submetem as filhas ao mesmo destino. Ajudam a perpetuar esta violência sistemática, institucionalizada contra o corpo feminino.   

Em outras culturas, a mulher é ensinada a cobrir-se da cabeça aos pés para não despertar o desejo sexual nos homens estranhos. A burca é o símbolo máximo de negação do feminino, a destruição da identidade feminina diante do mundo. A mulher é simbolizada como uma pecadora ambulante, uma provocadora e consequente merecedora de uma "lição", caso se atreva a expor partes do corpo, ou dizer o que pensa ou o que quer ou que não quer. 

m muitas instâncias, o ser mulher ainda é cercado de muitos tabús, simplesmente porque ainda há muita coisa velada, escondida, julgada como inapropriada, pecaminosa, impúdica. A mulher é intitulada como a responsável por carregar o troféu da moral do mundo, um atributo não escolhido, que vem por tabela. Sempre quando o assunto é pecado, e um pecado supostamente causado por uma mulher, está associado quase que exclusivamente a uma "contravenção" de cunho sexual.  É um conceito que se perpetua ad eternum. 

Ser mulher exige coragem, amor-próprio, convicção e determinação. Somos bombardeadas por constantes questionamentos a respeito das nossas escolhas, do que fazemos com nosso corpo, como nos relacionamos com o sexo oposto ou o mesmo sexo, em família e em sociedade. Vivemos sob constante e implacável escrutínio. Somos sabatinadas permanentemente, pré-julgadas, rotuladas, perseguidas, questionadas, analizadas sob a lente de um microscópio, porque ser mulher, por si só, tem repercussão. Parece haver um abalo sísmico no mundo todas as vezes que mulheres tomam as próprias decisões, quando buscam ser líderes, falam o que pensam e tomam para elas as rédeas de como querem ou não ser tocadas.

Apesar de estarmos em pleno século XXI, continuamos vivendo num patriarcalismo arcaico algumas vezes explícito, outras vezes velado. Embora possam fazer uso de métodos/estratégias diferentes, ambos objetificam a mulher e tentam controlar a expressão dela nas relações. Mulheres podem ser apedrejadas, torturadas, estupradas, desfiguradas porque já se assume que a mulher é uma transgressora, o bode expiatório de toda e qualquer coisa que pareça torpe aos olhos dos hipócritas e ignorantes que se posicionam de acordo com o que lhes convier.
Criam-se leis, modas, preceitos, códigos para se tentar enquadrar a mulher numa moldura. Precisa ser aprisionada, sua honra e moral mantidas em cativeiro.  A grande incongruência disto tudo é que, muitas vezes, aqueles que a oprimem são os mesmos que a cobiçam. Muitos dos mesmos homens que aprisionam, questionam, julgam as mulheres com as quais convivem dentro de casa, são os que mais cobiçam aquelas que vêm nas ruas, numa capa de revista, num filme, etc. Existe a escravidão da beleza, da moda e do moralismo, ignorância e machismo recalcitrantes! 

É preciso admitir que homens e mulheres são igualmente culpados por perpetuar este círculo vicioso de manipulação do que uma mulher deve ser diante do mundo. Os homens tentam determinar o que a mulher deve ser e como deve se comportar. As mulheres, especialmente as mães, contribuem para fazer cumprir tais normas por motivos religiosos, por falta de instrução, por não conhecer os próprios direitos ou porque, simplesmente, se conformam em viver sob dominação e não acham que existe algo errado nisto. Muitas vezes a mulher confunde dominação com proteção. E é aí quando se torna um pedaço de argila que vai ser moldado pelas mãos de quem a oprime, quem se sente no direito e no dever de determinar o valor dela como mulher no centro da família, na relação com o sexo oposto e na sociedade em geral. 

Por mais feminista que este discurso possa parecer, a questão da opressão contra a mulher é uma realidade que parece nunca sair de moda. Muitas mulheres têm sido vistas, tratadas e retratadas sob um prisma profundamente misoginista e utilitarista ao longo da História da humanidade. E isto tem um efeito muito destrutivo nas nossas auto estima e imagem desde muito cedo, antes mesmo que nos demos conta do que ser mulher significa de fato e até muito mais tarde, quando já não dá mais tempo de mudar estes conceitos, a não ser, quem sabe, em prol das próximas gerações. 

Simone Bittencourt 

UMA ESTAÇÃO EM TRANSFORMAÇÃO...


Quando a primavera chega é como se a natureza acordasse para um renascimento. Assim que o sisudo inverno chega ao fim, as metamorfoses começam a se desdobrar em todas as direções. Os galhos nús e crús das árvores passam a ensaiar timidamente os primeiros brotos. As flores a espalhar amostras de perfumes dos mais diversos no ar. Os aromas se fundem em mil combinações. Os gramados queimados, ressecados, vão adquirindo tonalidades novas todos os dias. De um desbotado, floresce num verde profundo, austero, impressionante...
A primavera tráz com ela uma energia que explode na alma. Revigora nossos sentidos, nos torna mais abertos, atentos, vivos, enternecidos. 
Céu azul, dias de sol radiante, brisa fresca e suave, natureza no auge do seu magnetismo, encanto e poesia. Cores, sabores, aromas, transformações trazendo de volta nosso senso de existir, pertencer ao universo, ser bem-vindo a fundir nossa natureza com a dela. Todas estas energias, estas forças criando um redemoinho irresistível que é o pulso da vida. 

-Simone-