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MEI E LAN...


Mei and Lan viviam num lugar remoto do interior da China. Eram mudas de nascimento e não aprenderam a linguagem convencional dos sinais, mas se comunicavam sem problema algum. Os olhos delas falavam só o que era importante, as mãos contavam estórias, os corpos se moviam em absoluto alinhamento de significados. Elas eram especiais, Tinham dons desconhecidos aos passantes que olhavam para elas com curiosidade.
 
Mei gostava do céu. Lan gostava do mar. Juntas desfrutavam destes dois mundos particulares. Mei dizia que o céu era uma pintura de aquarela, porque estava sempre mudando de tons. Lan, por sua vez, dizia que o mar era um dançarino hipnotizador, por conta dos movimentos das ondas, numa metamorfose de ir e vir sem fim.
 
Mei um dia levou Lan para conhecer o céu. Revelou os mistérios por detrás das nuvens de algodão. Juntas se perderam no degradê das cores, da imensidão celeste, de infinitas possibilidades de sonhar para o além de outras dimensões. Lan descobriu anjos em forma de borboletas e jardins feitos de purpurina turquesa em suspensão. Raios de sol espalhavam seus tentáculos por toda a parte. O céu era um lugar místico, no qual as leis da física eram outras e a vontade de ficar era avassaladora.
 
Lan, em agradecimento, convidou Mei para mergulhar no mar, depois que voltaram do céu. Mei revelou que o mar dançarino era um conquistador. As ondas braços acolhedores que levavam para uma viagem além do horizonte. O som do mar feito de acordes doces e precisos. As melodias guias que conduziam-nas por entre seus muitos mistérios. Todos os tipos de criaturas marinhas acompanhavam a jornada das duas moças chinesas perdidas em inebriante fascinação.
 
Anoiteceu. Dentro do mar Mei and Lan adormeceram. Deixaram-se levar para onde o dançarino mar quisesse conduzí-las. Embaladas foram em sonhos audazes e inesquecíveis. O mar movia seus corpos como duas folhas náufragas além mundo. Foram tragadas pelo encanto daquela calmaria sedutora.
 
Quando acordaram, Mei e Lan olharam uma para a outra com surpresa. Durante o sono no qual se perderam no enredo do mar, foram transformadas em sereias. O oceano dançarino não resistiu à poesia daquelas duas extraordinariamente singulares almas e tornou-as cativas no seu  universo indomável.
 
-Simone Bittencourt Shauy-
 

RITUAL DE UM ENCONTRO...


Uma das melhores sensações do mundo é viver o ritual da preparação para encontrar alguém que a gente gosta. 

No livro "O Pequeno Príncipe", a personagem Raposa diz ao Pequeno Príncipe que chegou fora de hora:

"Seria melhor se você tivesse vindo à mesma hora. Se, por exemplo, vier às 4 horas da tarde, às 3 horas começarei a ser feliz.  Vou me sentir mais e mais feliz à medida que a hora passa. Às 4 horas, estarei ansioso e saltitante. Mostrarei para você quão feliz me sinto! Mas se vier à qualquer hora, nunca saberei a que horas meu coração deveria estar pronto para vê-lo... É preciso criar rituais..."

A gente perde o sono cedo. Acorda com uma apreensão que dá um sorriso nos lábios. Aquela coisa de saber que vai abrir o presente na noite de Natal sem ser Natal. Esperar para encontrar alguém que a gente gosta é um misto de muitos sentimentos: curiosidade, expectativa, mistério, ansiedade, deslumbramento. Até brincamos de querer atrasar o encontro para continuar vivendo tamanho deleite. 

Antes de deixarmos a cama, já estamos com os pensamentos ocupados construindo mil cenários possíveis do encontro. Imaginamos a outra pessoa sentada ao nosso lado, feliz de nos abraçar também, tão entusiasmada quanto. 

Ao levantarmos, é com decisão! Olhamos para o espelho e até sorrimos para ele de um jeito maroto, como as crianças fazem. A gente se vê meio que rindo à toa porque é apaixonante deixar marinando este suspense todo. 

Abrimos o guarda-roupa e aí começa o drama de decidir o que vestir. Queremos estar bonitos para o outro. Mas não é só isto! Apreciar a outra pessoa, pensar em causar uma boa impressão para ela, também faz a gente se gostar mais, se valorizar mais. 

À esta altura, o coração já está descompassado. A única imagem que enxergamos na frente agora é o rosto da outra pessoa emoldurado na nossa imaginação. Esta imagem causa um turbilhão de emoções em desalinho!

Estamos no lugar marcado, esperando... O encontro nunca tão perto de acontecer. Dor no estômago, taquicardia, sapo na garganta, respiração superficial, aflição, inquietude. Os ponteiros do relógio parecem morrer de preguiça de ir para a frente. Nossos olhos saem a procura daquele rosto especial na multidão. 

Pronto! A pessoa tão esperada chegou!

Agora tudo acontece em câmera lenta. A visualização, a aproximação. É um momento de absoluta felicidade e gratificação! Os cientistas dizem que ficamos com nossas pupilas dilatadas quando estamos diante de alguém que gostamos. Sem dúvida, nossos sentidos ficam em alerta absoluto porque queremos captar tudo o que a pessoa nos significa, nos faz sentir, até mesmo sem sequer saber.  

Olhos nos olhos. Olhos que traduzem tudo, dispensando palavras. Sorriso às vezes largo, às vezes tímido. Mas um sorriso de indisfarçável satisfação. Aí vem aquele abraço gostoso, maravilhoso, a proximidade de coração e alma. Aquele abraço que se deseja congelar no tempo e no espaço! É como trazer a pessoa para dentro da gente e a gente dentro dela. Queremos aquela pessoa só prá gente para viver caichoeiras de troca de afeto, estórias, memórias, novidades, nosso universo de vida inteiro! 

Como é bom gostar de alguém e ser gostado do mesmo jeito... É a melhor das sensações! Uma íncrível realização emocional! É aquela plenitude, aquele lugar onde queremos viver imersos ad eternum. Nosso paraíso particular! 

A pessoa está ali, em carne, ossos, cores, sorrisos, olhares, afetos, sonoridades, aromas, com gosto e alegria como estamos. Ficamos com pressa de estar com o outro, na presença do outro. É incrível o quanto existe de troca num encontro assim, especial... Tanta coisa fica pairando no ar, que é absolutamente mágica!

Que delícia se estar com quem nos faz sentir em casa! É porto-seguro, lugar aconchegante, aquela loja de doces inteirinha  para a gente se perder nela. É uma barra de chocolate, um bolo de cereja, um sorvete caprichado, um presente inesperado. Pode ser tudo isto e muito mais!

Sentimos vontade de tocar a pessoa de todas as formas: coração, alma, corpo, sentidos, até por telepatia. É um prazer intenso de demonstar o gostar, amizade, bem querer, de convidar o outro a se sentir aceito, amado, admirado, visto, querido, cortejado.

Estes momentos nos fazem esquecer que pertencemos a outros mundos. Todo o resto  parece parar de existir, de se mover, de influenciar o aqui e o agora. A vida fica circunscrita àquele particular instante, àquele único indivíduo, àqueles singulares sentimentos, quereres, buscares, partilhares... Este gostar é céu, terra, água e ar. É noite e dia. É tempo e é espaço. É respiração e pulsação. É vendaval e calmaria. É chuva, sol, arco-íris. É ganho, só ganho. Mesmo quando a gente se perde no outro, o outro vive na gente, também se perde na gente, se funde na gente.

Ah! O encontro com quem se gosta... Faz tudo parecer cativante, encantador, eletrizante, edificante, transformador, inebriante, absolutamente irresistível! 

Durante a conversa, são sorrisos, olhares, toques, construção de cenários feitos de sentimentos, afinidades, personalidades. Palavras ou podem brotar aos montes ou ser apenas meros detalhes quando os significados se criam nas sutilezas. A comunicação acontece de muitas formas. Expressões faciais, gestos com as mãos, posição do corpo um diante do outro, movimento dos olhos, temperatura da pele, silêncios, hesitações, impulsos. Tudo, consciente ou não, tem um propósito, endereço certo, impacto, uma tradução particular. 

Depois da despedida, entra em cena aquela saudade típica, o desejo de encontrar tudo de novo. Tudo o que nos tocou permanece em suspensão... na nossa suspensão! O outro vai, mas fica com a gente. Nas próximas horas iremos viver de novo um bocado de cada coisa que aquele encontro fez nascer. Traduzimos as impressões. Na memória, evocaremos tudo aquilo nos mínimos detalhes, acrescentaremos mais temperos, cores e energias e tudo vai se metamorfosear dentro da gente, nos transformará, nos manterá felizes, gostando mais e mais, mais especialmente, mais profundamente!!

Vamos nos encontrar mais, muito mais!!! Deixemos, pelo menos naquele tempo do encontro, os aparelhos eletrônicos de lado. Vamos viver na ÍNTEGRA esta interação REAL, palpável, fisicamente revigorante, emocionalmente apaixonante. Vamos recriar o hábito de nos olharmos mais nos olhos de novo, abraçar com aquele gosto, prá valer, dar atenção para o outro como se ele fosse uma celebridade na nossa vida (porque é mesmo!). Um encontro é uma grande oportunidade de se reverenciar afeto, amizade, generosidade, calor humano, o senso de pertencer, de unir, de reinventar o verbo amar e praticar a conjugação de ser amado.

Os encontros são como capítulos de um livro. São estórias que se escrevem, personagens que se compõem, enredos que se desdobram, ritmos que se ajustam, sentimentos que se propagam, vidas que se completam, germinando outros capítulos... A vida é encontro e despedida, estória, memória, um ciclo ininterrupto de reinvenções, construções, revoluções, sensações...

-Simone Bittencourt Shauy-