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RITA HAYWORTH FOI MUITO MAIS DO QUE SIMPLESMENTE GILDA...

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Fotografada pelo grande George Hurrell

Hoje quero me propor a escrever sobre a vida feliz de alguém que viveu muitas coisas tristes. Rita Hayworth uma vez pediu que se alguém fosse escrever sobre ela, que o fizesse numa narrativa recheada de alegrias. Muito se falou das tragédias de sua vida e pouco sobre o que foi bom, positivo. Onde quer que esteja, quero fazê-la feliz com este meu artigo, honrar o pedido que fez.

Rita Hayworth nasceu em 1918, no bairro do Broklyn em Nova Iorque, num núcleo familiar de diversidade cultural. O pai, Eduardo, era espanhol, a mãe Volga, americana de pais irlandeses. Seu nome original era Margarita Carmen Cansino. Os Cansino eram uma família de dançarinos profissionais. Rita logo cedo começou a desenvolver tal habilidade que viria a ser uma de suas marcas registradas.

Apresentando-se num evento de dança com o pai no México, foi vista por um executivo dos estúdios Fox Films e recebeu uma oferta para fazer uma ponta num filme. Da Fox, foi para um segundo estúdio, Columbia Pictures, onde construiu uma carreira de 18 anos de imenso sucesso, conquistando à todos com sua competência, talento, graciosidade e nocauteadora beleza. Soube tão bem arrebatar nossa simpatia, afeição, sentidos e sonhos. Tinha uma coisa especial, muito especial, que não nos deixava tirar os olhos dela.

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Nos primeiros filmes, Margarita somente recebia papéis de mulheres exóticas, por conta de sua aparência notavelmente espanhola. Até que o dono do estúdio Columbia, Harry Cohn, resolveu mudar radicalmente sua imagem. De predominantemente morena tornou-se consistentemente ruiva. De Margarita foi tornada Rita.

Sua imagem figurava divinamente nas telas. Era a personificação da beleza e sensualidade. Um carisma tão grande que sempre roubava a cena. Na vida pessoal era profundamente tímida, humilde, generosa, doce e apreciada por sua autenticidade genuína. Como atriz, extremamente disciplinada, perfeccionista e dedicada. Foi conhecida, depois de Bette Davis, como a atriz que trabalhava com mais afinco para sempre se superar na arte de atuar e dançar. Acalentava o sonho de cantar, igualmente.

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Ao lado de Fred Astaire no filme "You Were Never Lovelier" de 1942

O grande dançarino das telas Fred Astaire disse que Rita foi a sua parceira favorita nos filmes musicais e que ficava perplexo com a facilidade que tinha para memorizar as coreografias, não importava quão complicadas fossem. De fato, a harmonia e sincronia entre ela e Astaire eram nada menos do que uma simbiose perfeita. Rita dançava com uma leveza, majestade, doçura, exuberância, charme e magnetismo ímpares. Fez dueto também com outro legendário ator e dançarino Gene Kelly. Rita dizia que quando dançava libertava-se, deixava-se perder numa outra dimensão emocional.

Em 1946 estrelou um filme noir clássico chamado "Gilda", que a tornou a mulher mais cobiçada dos anos 40, sendo chamada de "love goddess". Homens de todos os cantos do planeta sonhavam dia e noite com ela. Apesar de Rita ser uma mulher introvertida, discreta e sem ego algum na vida real, tinha um dom inato para fazer papéis de mulheres extraordinariamente sensuais, sexuais, provocantes, seguras de si, cheias de truques e artimanhas. A cena mais famosa do filme mostra a personagem Gilda fazendo um striptease de somente uma peça de roupa. Uma luva. A  forma como retirou a tal luva foi de espetacular erotismo, incomparável sedução! Tanto que na chamada do filme estava escrito: "Nunca houve uma mulher como Gilda!" Esta personagem lançou Rita ao estrelato absoluto, sem escalas.

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Em "Gilda" (1946), numa das mais memoráveis cenas que Hollywood já produziu...

Não somente foi uma estrela de cinema de extremo talento, mas um dia, a estrela tornou-se princesa. Casou-se com um príncipe muçulmano e afastou-se das telas por algum tempo para viver um conto-de-fadas na vida real. Com o príncipe teve uma filha, Yasmin, que foi sua companheira fiel, leal e incondicional por toda a convivência delas.

Era muito apreciada e admirada por seus colegas atores e equipes de filmagem e fez grandes amigos como Glenn Ford, Jack Lemmon e Robert Mitchum, que foram figuras muito protetores na vida dela. Gostavam de Rita despretenciosamente, não só por ser uma linda mulher. Nunca tentaram tirar proveito da sua vulnerabilidade, ao contrário da grande maioria de outros que orbitaram ao redor dela ao longo da vida e carreira.

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Ao lado de um dos seus melhores amigos, Glenn Ford...

Rita construiu uma carreira cinematográfica valiosa e memorável. Contracenou com atores e atrizes de renome como Tyrone Power, Anthony Quinn, John Wayne, Orson Welles, Frank Sinatra, James Cagney, Burt Lancaster, Olivia de Havilland e Cary Grant. Atuando ou dançando, era uma efusão de indiscutíveis carisma, sensibilidade e versatilidade. Num meio como Hollywood onde tudo parecia efêmero, superficial e insincero, Rita Hayworth provou que tinha substância, era real, gostava das pessoas pelo que eram e esperava o mesmo delas.

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Numa cena muito sensual com o galã Tyrone Power em "Blood and Sand"...

Ao lado das duas filhas, era somente sorriso e orgulho. Não media esforços para fazê-las crianças felizes, não importa quão conturbada e ocupada sua vida estivesse. Muitas atrizes tinham filhos para melhorar a imagem delas publicamente e pouco se importavam com as crianças, mas Rita foi uma mãe de verdade, presente, amorosa, sensível.

No momento mais difícil de sua vida, que foi o período quando foi acometida pelo mal de Alzheimer, Rita teve a filha Yasmin incansavelmente ao seu lado até o último instante. A filha retribuiu todo o amor, atenção e compreensão que a mãe havia lhe dedicado.

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Com a filha Yasmin Khan...

No dia do seu sepultamento, estavam presentes seus melhores amigos da vida inteira, de horas felizes e difíceis, dentro e fora da tela. Rita Hayworth faleceu em 1987 aos 68 anos. Ainda hoje, é lembrada com apreço, admiração, saudade, amor e alegria por fãs do mundo inteiro. Foi um ser humano de qualidades raras. Uma mulher de fibra e coração genuíno. Profissional irrepreensível e muito querida. No caso de Rita Hayworth, é muito difícil definir qual beleza era a mais resplandecente, se a de dentro ou a de fora.

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Numa beleza mais madura...

Excelência, encanto, beleza, esplendor, sensualidade, generosidade, sinceridade, dignidade eram sinônimos de Rita Hayworth. Foi muito, muito mais do que sua personagem Gilda. Na verdade, nunca houve mesmo uma mulher como Rita Hayworth! Não era uma em um milhão. Era simplesmente única!! O legado que deixou neste mundo estava mesmo predestinado a ser eterno, inesquecível, admirável, indelevelmente encantador e apaixonante...

O FILME "CAROL" E O APAIXONAR-SE...

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O cenário é Nova Iorque, Estados Unidos, década de 50. O filme baseado no livro entitulado originalmente "The Price of Salt" da autora americana Patricia Highsmith. A história, uma história sobre as descobertas, o fascínio, belezas, incertezas e os desafios no processo do apaixonar-se.

Therese Belivet é uma recém-contratada vendedora numa loja de brinquedos no período natalino. Jovem, doce, retraída, alimenta ambições de ser uma fotógrafa profissional. Se sente distante do pulso do mundo real por sua quase que completa inexperiência sobre as possibilidades da vida e da relação com as pessoas. Vive suspensa numa atmosfera de indefinições e de emoções desbotadas. Ainda não construiu sua própria identidade como mulher.

Carol Aird é uma mulher de meia idade, madura, culta, sofisticada, contemplativa, remota, mãe dedicada, esposa sufocada num casamento falido. Por viver numa sociedade de aparências, mantém hermeticamente fechados os conflitos do seu mundo interno. Apesar da aparente plenitude de suas experiências, vive a angústia de não saber onde obter uma saída para viver sua real essência. A sensação de isolamento na qual vive é dolorosa e profunda.

Duas mulheres de perfis que pareceriam tão díspares, se encontram numa loja de departamentos onde Therese atende Carol como uma cliente que vem solicitar ajuda para encontrar um presente de Natal para a filha. De imediato, Therese sente um intenso fascínio por Carol. Impressiona-se com esta mulher que decora o cenário da loja com sua beleza surreal, inata sensualidade e imperturbável auto-confiança. Só consegue enxergar tal figura luminosa que se transforma aos seus olhos na única vida daquele espaço, daquele momento. Carol, igualmente, parece se encantar com a inocência, serenidade e autenticidade de Therese. Ambas deixam uma veemente impressão no mundo secreto da outra...

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Dias depois, surge a possibilidade de um novo encontro. Os olhares de Therese e Carol continuam a se estudar num intenso encanto uma pelo mistério da outra. Therese fica intrigada com a natureza remota e soberana de Carol como mulher, uma mulher que nunca viu, não sabia se poderia existir e sempre sonhou em se tornar. Carol com o candor de Therese e a expressão do seu muito lisongeiro deslumbramento por ela. Embora vivam em muito diferentes realidades, ambas estão engessadas nas próprias circunstâncias. Em contraste com a intensa solidão que sentem, uma parece encontrar na outra um escape para um universo paralelo que possa libertá-las da sensação de claustrofobia na qual se vêm aprisionadas. Dois mundos que se convergem quase que instintivamente em nome de um sentimento que amplia as fronteiras de suas vidas, rearranja seus dias, os preenchem com novas cores e instigantes expectativas.

A construção deste vínculo de afeto é baseada primordialmente numa comunicação por intermédio de olhares, gestos, sorrisos, palavras não ditas, sentimentos que crescem e implodem dentro delas, quase que um constante exercício de telepatia. Carol é uma figura insondável. É deixado à Therese o desafio de decifrá-la. Ainda não conseguem elucidar o que existe, mas sabem que alguma coisa aconteceu e que está dando uma nova forma ao que são e sentem de mais absoluto e intrínsico. Logo tornam-se quase que dependentes uma da presença e da essência da outra.

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Carol enfrenta um processo de custódia da filha extremamente conturbado e decide fazer uma viagem para longe até que o processo judicial seja oficialmente iniciado. Sentindo sua vida um vazio sem precedentes, decide convidar Therese para acompanhá-la, talvez tendo como principais motivos, dar a oportunidade a jovem de descobrir as possibilidades da vida, expandir finalmente seus horizontes, emancipá-la, além de lhe fazer companhia. Sente-se segura e feliz com Therese, que não oferece ameaça, a tira da monotonia, alivia o vazio que sente e, sobretudo, lhe dá valor, atenção, é leal e a coloca como centro do mundo dela. Um mundo que Carol se sente atraída a mergulhar, porque sabe que nele existe aceitação incondicional, espaço para ela ser a sua essência finalmente, além de afeto infinito e genuíno. Therese, sensibilizada com o convite, aceita-o sem hesitação. Absolutamente idealista, sonha em resolver os problemas de Carol e fazê-la saborear sempre um senso de felicidade e apreciação. Assim, as duas cruzam o país sem destino determinado, tentando se desvendar das aflições do que deixaram para trás.

Longe de tudo e de todos, a tradução do que sentem começa a se definir ao longo dos dias, amplificando mais e mais o espaço que isto ocupa em suas vidas. Um sentimento que mobiliza todas as emoções e pensamentos delas. É a ramificação do processo de apaixonar-se pela primeira vez, tão intenso que torna módicos possíveis impedimentos como diferença de idade, classe social, gênero, experiências de vida e o tão opressor cenário no qual vivem, de normas ditadas pela altamente reacionária sociedade americana dos anos 50 pós-guerra. Os rumos desta viagem são orquestrados por Carol. É uma jornada de libertação para uma e descoberta para outra, mas sobretudo uma possibilidade de montarem, finalmente, as peças deste quebra-cabeça do que sentem, que até então vivera em suspensão, numa linguagem não mais do que telegráfica.

O desenrolar-se da relação de amor entre Carol e Therese dá-se ao longo do filme num grande compasso de espera, como que em conta-gotas. A história vai desabrochando em câmera lenta, numa cascata de inúmeras sutilezas, quase perpétuos silêncios e constantes viésses. Se vive a expectativa do que acontecerá na próxima cena com aflição porque as certezas e incertezas parecem fundamentadas no mesmo terreno movediço.Tudo é tão frágil, tenso e ameaçador para a existência e sustentação deste amor que acabou de germinar. Quando a paixão entre as duas é finalmente consumada, ambas são transformadas neste envolvimento emocional e físico que ultrapassa a superfície da pele de cada uma. Atingem o ápice do momento da mais completa entrega, o desejo de estar vivo no outro, entrelaçado nas emoções do outro, incondicionalmente. Um instante mágico, pautado na mais profunda das sensibilidades... Carol e Therese dão vazão a tudo o que sentem numa linguagem na qual a pureza da reciprocidade dos afetos orquestra reações, desejos, necessidades, compassos, caminhos...

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Entretanto, quase que imediatamente acontece uma ruptura neste viver a intensidade do sentimento. O relacionamento de ambas é investigado e descoberto. Diante do risco de um escândalo que poderia comprometer a conquista da custódia da filha, Carol se vê na encruzilhada de ser forçada a escolher entre levar em frente a paixão por Therese ou abdicar da convivência com a filha pequena a quem tanto ama. Sem saída, cede a pressão imposta pela chantagem do ex-marido que não aceita perdê-la para outra pessoa. Retorna para casa, interrompendo qualquer possibilidade de comunicação com Therese.

A jovem Therese é deixada no quarto de hotel, onde na noite anterior ambas haviam vivido a impetuosidade de seu delicado romance. Devastada física e emocionalmente com o afastamento daquela que lhe roubou o coração, é forçada a amadurecer no meio desta árdua desolação. Cria um escudo racional e, ao longo do tempo, assume as rédeas da própria vida. Segue em frente em direção às ambições profissionais enquanto tenta lidar com a dolorosa ausência de Carol. Carol, igualmente, procura seguir o mesmo caminho, a despeito do sofrimento, humilhação e devastação causados pela mudança brusca dos acontecimentos vividos e o regresso à condição de sentir-se engessada novamente no mundo do qual tentou se libertar.

O tempo segue sua inexorável marcha e depois de tão reféns das metamorfoses que as circunstâncias impuseram na vida de ambas, um dia se reencontram. Desta vez, em contraste com o cenário do primeiro encontro, Therese surge lapidada, auto-confiante, exibindo charmoso requinte. Carol se mostra a figura frágil, deslocada, sem saber onde se firmar. Carrega com ela a culpa de ter deixado Therese sem precisas explicações e o medo de Therese ter desenvolvido um profundo rancor por ela. Therese à princípio, mostra-se árida, distante, austera, desconfiada como um pequeno animal ferido. Mas só na superfície das palavras e de certos gestos, porque o olhar de fascinação por Carol, que sempre nutriu, continua indisfarçável, cheio de brilho, como que sob um encanto, apesar de extremamente questionador, ávido por respostas que foram deixadas caladas. Carol, sentindo-se vulnerável e quase indefesa, igualmente observa Therese com interesse, fascinação, admiração e profundidade, tentando desvendá-la. Numa certa altura da conversa, expressa a vontade de que vivam juntas, algo que Therese imediatamente rejeita. Ainda sim, humildemente Carol confessa que a ama. Embora silenciosa desta vez, Therese parece extremamente tocada. Antes que dê tempo de fazer o movimento de dizer algo, acontece uma interrupção brusca na conversa delas. Carol deixa o lugar e Therese toma um rumo para outra localidade, mas as palavras de Carol continuam a ecoar dentro dela intensamente. Além do que, aquela imagem extraordinária, reluzente, encantadora permanece impregnada em Therese.

As horas passam, a noite chega. Therese se vê rodeada pelas pessoas com quem sempre conviveu. Observa a todos com o distanciamento de quem nunca se sentiu pertencendo àquele universo, àquelas conversas, àquelas escolhas. E então, diante da solidão que sempre sentiu no meio daquela multidão, sai decidida à procura de Carol. A reencontra num restaurante. Esta cena de quando o olhar de ambas se encontra é um dos pontos mais altos do filme porque é um instante do mais extraordinário significado! A expressão máxima de um amor revelado num simples olhar. Sempre o olhar, o olhar que permeou o relacionamento delas deste o princípio. Apesar da passagem do tempo e das mágoas e dores que marcaram as vivências de ambas, o amor uma pela outra heróica e inabalavelmente sobreviveu, agora finalmente com uma chance de ter um destino promissor. Um amor que criou raízes em ambas e amadureceu. Aquele descobrir do primeiro apaixonar-se foi intenso demais para sucumbir até mesmo às tumultuosas marés de tempestades que se desdobraram no processo do viver. Carol e Therese foram transformadas para sempre por este amor que aconteceu como todos os amores acontecem: inesperada e arrebatadoramente.

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"Carol" é um filme de fotografia deslumbrante. Cada cena foi pensada em infinitos ângulos, como que borbada à mão. A trilha sonora segue o fluxo dos sentimentos das personagens principais. É delicada, leve, toca a alma. O diretor do filme, Todd Hayes, um mestre em retratar a América dos anos 50, confirma mais uma vez que tem um talento ímpar para traduzir nas telas as muitas sutilezas e belezas do universo feminino como poucos. O resultado do trabalho dele se prova verdadeiramente brilhante e de um bom gosto primoroso. Se tem a sensação de que o filme é uma mistura de sonho e realidade. É mágico acompanhar o movimento da câmera e o que ela destaca nas cenas nas quais se projeta o fascínio crescente de Therese por Carol. O figurino criado pela talentosa Sandy Powell é belíssimo, especialmente na intenção de enaltecer a elegância e a sofisficação da personagem Carol, sempre impecável, como se fosse uma estrela de cinema de vida real 24 horas por dia.

Cate Blachett que já consagrou tantas e tantas vezes seu inato talento de atuar, continua a ampliar mais e mais os ângulos de sua impressionante versatilidade como atriz. Seja qual for o roteiro que chegue às suas mãos, alcança distâncias e alturas transpostas por poucos na sua arte de atuar. Sua Carol é feita da mais intensa sensualidade, maturidade e infinitos desdobrares. Os olhares de Carol são um espetáculo a parte. Olhos que brilham singularmente, que questionam indiscriminadamente, que seduzem irresistivelmente, que amam intensamente. Suas mãos se destacam muitas vezes no filme. Têm uma linguagem própria de expressão, de magnetismo. O rosto, o olhar e as mãos de sua personagem constróem o desejo no coração de Therese com uma engenhosidade irrepreensível, sem paralelos. Cate Blanchett desfila sua imperial presença na tela com um charisma inesquecível. Nos faz querer, como Therese, salvar Carol, libertá-la, tirá-la do angustiante casulo onde é obrigada a permanecer por boa parte da história.

A Therese de Rooney Mara cria um lindo contraste com Carol. É muito tocante o misto de inocência e impulsividade que ela expressa. O magnetismo que sente por esta mulher é de uma poesia rara. Apesar de Carol ser plenamente experiente quando Therese ainda está no início do processo de construção das próprias vivências e convicções, o sentimento puro que demonstra por Carol a pega de surpresa e como numa emboscada a tira do isolamento da sua tão remota existência interna, projeta uma nova luz na sua vida, tão vital! Seria impossível Carol não se deixar render enamorada pela suavidade com a qual Therese a admira, o interesse que demonstra pelo seu universo emocional, sua determinação em ajudá-la, descobrí-la, alcançar sua essência por detrás de seus necessários escudos e máscaras. A absoluta devoção de Therese torna Carol vulnerável no sentido da entrega sem reservas, sentimentos e desejos que teve que manter represados por tanto tempo. Esta é a formidável força que compele uma em direção a outra, esta fragilidade emocional que partilham.

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Testemunhar o desdobrar desta relação de paixão tão genuína entre tais personagens singulares faz cada um de nós lembrar das próprias histórias, quando nos apaixonamos pela primeira vez. Um labirinto de surpresas, questionamentos, inquietações, descobertas, sentimentos confusos no princípio, para se tornarem reveladores e transformadores mais tarde.

É exatamente esta dança de muitos passos que não se sabe exatamente para onde irão levar no próximo movimento, já que se trata de um terreno desconhecido, que torna "Carol" um filme sentido visceral e apreensivamente. Uma obra de personagens arrebatadoramente sedutores, deslumbrantes, sensíveis e inesquecíveis. Cate e Rooney souberam traduzir o amor tão soberbamente nas suas atuações... Excepcionalmente cativantes, deixam suas marcas na gente, despertam paixão em nós por elas. Carol, especialmente, é uma personagem que, mesmo depois que se deixa a sala de cinema, continua a existir, a exercer uma indelével influência nas nossas emoções... Uma figura para não se esquecer jamais e um filme para nunca se deixar de se surpreender e celebrar.

"Carol" é uma profundamente encantadora história de amor exibida como uma obra-prima. Um lindo sentimento que é deixado em êxtase para quem quiser abraçá-lo e traduzí-lo nas próprias emoções, nas próprias vivências, nos próprios sonhos.