Total Pageviews

ROMPENDO TEMPOS...


A última porta que se fechou
Ecoou solidão
Silenciou o que passou
Por detrás de seus domínios

Agora estou aqui
Para um novo mundo
Como um artista sentado
Em frente a uma tela branca
Tentando concatenar idéias
Sempre com aquela teimosa dúvida sobre meu talento

Para trás ficam as certezas
Para frente está o mistério
Que o desconhecido
O não vivido
 Trazem

É um misto de apreensão
Com um desejo impetuoso de abraçar o espírito
Do desbravador

Me pergunto
Quais são os sete mares
Que me aguardam...

Sei que não vão esperar
Até que eu vire o comandante do navio
Vão me pegar ainda marinheira
Senão já náufraga
De outras viagens

Mas tenho a memória
De algumas âncoras que finquei
E onde não quero mais ancorar
Ou fazer morada

Quero ser mais livre
Para me aventurar em novas correntes
Descobrir novos horizontes
Mas atracar em portos...bem...
Só se necessário

Só mesmo se o acaso seduzir-me a perder-me
 Na contemplação de um por-do-sol mais demoradamente
Porque aquele um
Foi diferente dos outros
Me fez querer criar raízes
Em algum lugar...

-Simone Bittencourt-

SIMPLESMENTE UM LUGAR...


Aquele lugar tinha uma coisa de sossego que era um encanto. Era possível ouvir o som do silêncio, tamanha calmaria. Longe de tudo em todas as direções. Imaculado em vários aspectos. Gostava de sentar no gramado inesquecivelmente verde para pensar na vida. Refletir sobre o azul do céu e acabar dormindo sem hora para acordar, como se fosse transportada para uma outra dimensão de sentir e viver. Falando em sentir, este lugarejo era um banquete para os sentidos. Aromas maravilhosos, cores deslumbrantes, melodias que a natureza sabe como ninguém orquestrar, sabores dos mais diversos e sedutores. 
A casa era antiga, de uma simplicidade sem paralelos. Tinha muitas estórias para contar e espaço para aconchegar qualquer que fosse o transeunte que trombasse por aquelas bandas. Tinha perfume de café fresco e de pão saído de padaria. Nada mais hospitaleiro do que isto! Cada cômodo tinha uma personalidade, uma força mágica. Depois que se entrava naquela casa, se saia outro. Coisa esquisita. Acho que a casa era toda assim especial, porque queria que quem viesse ficasse. Casas não gostam de ficar sozinhas, assim como os animais domésticos. Casas são felizes cheias e melancólicas vazias. Casas gostam de risos, conversas, barulho de passos, mistura de aromas na cozinha, gente abrindo e fechando suas janelas e portas. Casas gostam de quadros na parede, tapete no chão e bolo crescendo no fogão. 
Havia muitas árvores espalhadas pelo jardim. Eram todas elegantes, mas sem arrogância. Os galhos acomodavam os ninhos dos pássaros, como as mãe embalam os filhos pequenos nos braços, com cuidado e ternura. As árvores acho que tinham um q de conversadeiras, porque a tudo observavam. Só no inverno que ficavam mais retraídas e caladas. Eram todas lindas e generosas. 
Nos fins de tarde, as abelhas vinham se juntar às borboletas para paquerar as flores que competiam em vaidade. Desfilavam um mundo de tonalidades. Flores são muito poéticas. 
E eu, desde pequena, sempre gostei de passar horas observando as formigas trabalhando incansáveis durante o dia e ouvindo os gafanhotos cantando durante as noites quentes de verão.  Insetos são criaturas formidáveis. Só na aparência são frágeis. Diferentes de nós humanos, são capazes de se adaptar a qualquer intempérie e sobreviver catástrofes sem precedentes. Gostava também de acompanhar o trabalho arquitetônico de grande detalhe e perfeição das aranhas construindo suas inventivas teias. Algumas carregando seus ovinhos com um cuidado e preocupação de alguém que sabe calcular o tamanho da responsabilidade de se colocar vidas novas no mundo. 
Naquele lugar me perdi tantas vezes. Me perdi em devaneios e afetos. Aquela coisa de amor à primeira vista tinha por ele. Era sempre igual, mas sempre uma novidade. 

-Simone Bittencourt-